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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O Caminho Desconhecido

O Caminho Desconhecido

INTRODUÇÃO

    Caros visitantes,

    Qualquer explicação sobre os textos a seguir poderia acabaria por me dar razão para elaborar mais uma parte de "O Caminho Desconhecido", por isso, leiam e tirem suas próprias impressões sobre esses enunciados, a meu ver, mais que contemporâneos.

    Não se assustem com a data por mim inventada para esta introdução. Este ano, 2193, é o ano de onde um dos narradores conta a história de "O Caminho Desconhecido", como se os autores da narrativa se encontrassem nessa faixa de tempo, inclusive após o citado ano.

    É possível também imaginar que certos textos, sem referência temporal, foram escritos em diferentes anos, inclusive muito antes de 2193 (quem sabe atualmente). É apenas uma delimitação temporal, um artifício, um tanto que simples, mas refletido, para dar um enredo interessante à minha história. Não foi objetivo inicial produzir tal efeito, mas ele acabou ocorrendo.

    Como vocês poderão ver, vali-me, um pouco, de minhas próprias poesias para constituir esta singela narrativa. Isso porque as poesias, como poderão constatar, são do ano de 2011, e a narrativa de 2013.

    Talvez possam achar estranho que identifiquem uma história mais sólida em meio a tantos trechos aparentemente soltos. Constatarão, entretanto, que tratam todos eles de temas em comum, embasados todos eles, como notarão, em um eixo central.

    Com um pouco de fantasia, creio que todos vocês poderão imaginar um lugar para os textos "soltos", na história, o que eu mesmo de alguma forma tentei fazer, pois muitos deles, a princípio, não tinham relação entre si, mas os adaptei e os arranjei de modo que fossem coerentes uns com os outros.

    A história foi delineando-se à medida que escrevi, mas o eixo já me era prévio, a temática já me era familiar e creio ser bem possível que seja familiar ao leitor, cuja a atenção tento prender neste momento.

    O tema nos é familiar, estamos imersos nele e bastou dar ouvidos e voz a ele.

    Ao final de cada parte de "O Caminho Desconhecido" você encontra um link para a parte seguinte.

    Garanto à vocês uma razoável narrativa até a parte 25, pois gostei bem da maneira que conduzi minhas partes até então. Na verdade estava, ao escrever essa apresentação, parado nela, à espera de me surgir à mente a parte 26 (já estava com algumas idéias).

    Mas o temor de alterar o sentido do que tenho escrito até então faz com tenha que alertá-los de que não tenho muita segurança do que virá. Por isso aponto mais uma vez a vocês: não me responsabilizo pelas partes que virão. Se preferirem contentarem-se com o que foi escrito até a 25, talvez esteja de bom tamanho.

    Talvez o que foi escrito até aqui sirva mais a vocês, de alguma forma, do que o que está para vir nas próximas partes. Talvez eu mesmo sinta que o essencial já foi escrito e que o que virá não será tão inovador, ainda que importante - pois poderei desenvolver as idéias já esboçadas.

    Até por isso quebrarei a continuidade que tenho mantido em "O Caminho Desconhecido". Manterei todos os próximos textos com a numeração sucessiva, da maneira que vinha fazendo. Mas agruparei os textos no que chamarei de "partes": a I, a II e a III.

    Valer-me dessa artimanha me deixará um pouco mais livre para escrever, embora manter-me-ei inevitavelmente inspirado e, de certa forma, ainda circunscrito pela temática da "parte I" de "O Caminho Desconhecido". 

O Caminho Desconhecido (parte 1)

    Não deixou de retornar ao caminho desconhecido, apesar de querer esquecer de lá, sempre que podia.

    Permaneceu ávido por manter-se no Mesmo, embora alternativas lhe fossem dadas. Achava, entretanto, que todas as alternativas não valiam a pena, mesmo aquelas mais brilhantes e sedutoras. Todas essas mais atraentes não se coadunavam com a verdade do seu espírito e lhe pareciam tão inalcançáveis quanto estranhas a ele. Procurava, entre os confins de si mesmo, a razão para sua morbidade, para sua mortalidade. Alimentava-se de sua própria busca e, mesmo as areias do tempo, não lhe faziam acordar de sua vida sonolenta.

    Os anos iam se passando, as fontes de esperança iam secando e, ironicamente, os momentos de tristeza à sua volta, as desgraças, as desumanidades do mundo e a solidão iam lhe mostrando que as coisas são assim mesmo, que a vida não muda, que, de fato, ela é uma grande ilusão; nem boa nem má em si mesma, apenas um esboço de perfeição, um espelho do que nunca foi, mas desejaria ser. Assim, no fundo - pensava -, era ele também, não muito diferente da realidade que o rodeava, que pintavam para ele, que ele pintava para os outros, e isso o confortava.

    Alguns momentos poderiam abatê-lo, mas o tempo se encarregava de curá-lo. Não tinha opção que fosse diferente, porque, no mais profundo de si, ele acreditava nisso. A esperança lhe impulsionava a essa verdade, a acreditar num eterno, numa salvação, numa mudança radical das coisas e, todas as noites, os sonhos não deixavam de conduzi-lo a esse caminho. Parecia destino certo, não havia nada que lhe pudesse tirar dessa trilha, pois não se pode ultrapassar as linhas definidas pela existência; haver-se-ia de ser um deus para isso e nem mesmo um deus gosta de ultrapassar os limites que tenha definido e de distribuir milagres a torto e à direita.

    Não que a esperança tenha se tornado, para ele, totalmente inútil. Pois ele conseguia ver que, até a mais bela flor, é capaz de nascer em meio ao deserto, até das profundezas do mar é possível se manifestar a soberania do fogo e da vida e até mesmo as noites não são completamente escuras e, em meio ao véu negro que cobre a terra, se é possível ver a claridade das estrelas e também a luz refletida pela Lua.

    Não que a vida não tenha lhe reservado momentos de felicidade e de recompensa. É que eles lhe pareciam tão momentâneos e fugazes... Não que o Sol não brilhasse tão forte que pudesse esvanecer com suas dores. Mas é que já não podia perceber o seu brilho, ele era apenas algo a mais em sua existência, era apenas um símbolo do que alguém já pôde sentir um dia e agora o iludem que possa sentir também. Não era o agora que lhe parecia assim tão diferente de outrora. Ele e os outros é que estavam mudados.  

    Não que as pessoas estivessem mudadas perante ao que já foram um dia, mas mudadas devido ao que agora desejavam ser. Achava que houve um tempo em que as pessoas não acreditavam em muita coisa, mas as coisas, ainda assim, se alteravam. Acreditava que hoje há muitas crenças, mas poucos milagres. Desejaria viver num mundo onde as coisas se assemelhassem mais aos seus sonhos para que não precisasse ficar tão preso a eles. 

    O destino foi o encurralando, o encurralando... Não lhe reservou surpresas. E sua busca resumiu-se à busca dos outros pois não havia força que lhe permitisse mudar isso. Ele mesmo suspeitava de suas intenções, acreditava que o verdadeiro despertar de sua existência era não se deixar levar por idéias que julgava excêntricas e que poderiam, talvez, mudar radicalmente os rumos de sua vida. Volta e meia advinham crises, mas ele se continha. Entretanto, percebia que existia um outro caminho que lhe era familiar, muito próximo, que vivia em seus pensamentos, mas que nunca poderia conhecer. 

    E assim, ao menos em sua mente, não deixou de retornar ao caminho desconhecido, apesar de querer esquecer de lá, sempre que podia.


O Caminho Desconhecido (parte 2)

    As pessoas, apesar de tantos séculos terem se passado, voltaram a desejar ter olhos para enxergarem e ouvidos para escutarem. Voltou-se a reclamar o trono, não mais o dos castelos, certamente, mas o de suas próprias casas. As Imagens começaram a serem percebidas como distantes, pois assim realmente o eram. Embora tivessem passado a se tornarem indispensáveis, não conseguiam manter seu encantamento indefinidamente. Elas mesmas não planejavam tamanho poder, despercebidas que eram de sua complexidade. A realidade, apesar de indefinível e inassimilável, mostrava-se muito maior do que a coloração desbotada que se desvelava tão incompleta, ou, pelo contrário, completa demais diante dos dilemas humanos.

    Os Sons eram fantásticos, vívidos e espirituosos - nem todos, é verdade. Mas mesmo os menos admiráveis mostravam essa face pulsante do ser. Contudo, não se podia mais viver tanto tempo dos ouvidos e dos olhos, enquanto a razão, a mais nobre de todas as sensações, era esquecida; nem mesmo lhe era reservado um lugar especial entre os sentidos humanos... e era ela que os guiava para além de seus sonhos e, apesar de não lhes fornecer armaduras suficientes, guiava-os em meio à névoa, senão ao destino certo, pelo menos, a algum outro lugar. Sozinha, a razão, era menos poderosa. Mas era ela, por fim, que poderia dar, à confusão das sensações, uma coerência, um rumo.

    As pessoas começaram a se questionar que decisão deveriam tomar. Os caminhos propostos pareciam diversos e inconciliáveis. A própria motivação para mudarem lhes era desconhecida. Alguns diziam que os sons tornaram-se irreconhecíveis. Outros diziam que eram as imagens que não diziam mais nada. Haviam também os que defendiam os sons e as imagens, mas que, ainda assim, achavam que alguma mudança deveria acontecer. E, é claro, havia os que queriam reerguer o primado da razão, e também havia os que lembravam dos outros sentidos menos nobres, e que apontavam o tato como a bússola maior do corpo - em contraposição à razão que seria a bússola maior da alma.

    As discussões eram mais proeminentes do que as atitudes. Esperar havia sido uma prática constante e era difícil, e mesmo temível, não agir assim. A hesitação era um porto seguro para o presente, mas o futuro lhes exigia uma resposta, ainda que fosse "desistir e retroceder". Essa era de fato uma opção pois, diante das incertezas da vida, como saber se o caminho a escolher é melhor do que o que vinha sendo percorrido? "Dilema dos dilemas", pensavam. E esse pensar era angustiante.

    O quadro em que estavam pintados não lhes era agradável. Mas se questionavam se o que tanto lhe incomodava eram suas vidas ou a moldura que lhes era imposta. Nisso também divergiam e, sobre esse ponto, também haviam radicais de ambas as posições, além de outros mais moderados que acreditavam que uma mudança, ainda que branda, poderia ser efetuada tanto em suas existências, quanto na maneira de percebê-las. Alguns, sabiamente, apontavam que essas coisas eram indissociáveis. Mas numa coisa concordavam: não sabiam exatamente como realizar qualquer uma das tarefas em que acreditavam, seja porque discordavam em vários pontos, ou seja porque, simplesmente, temiam que suas boas intenções fossem desvirtuadas.

O Caminho Desconhecido (parte 3)

    Estreitaram as veredas de seus corações. As portas foram se fechando. O ar tornou-se seco e o peito apertava. Cada indivíduo permaneceu em seu caminho solitário e a distância foi, dia após dia, aniquilando qualquer esperança. Em meio a esse lamaçal, aguardaram alguma mudança. Por outro lado, a própria mudança era muito temida. Aguardaram o desenrolar da história, e não sabiam se as consequências seriam piores ou melhores do que qualquer tomada de atitude.

    Esse foi o limiar para um novo momento em suas vidas - isso foi inevitável. A culpa, o medo, a vergonha, a tristeza, os piores sentimentos vieram assombrar suas mentes naqueles momentos de impotência. Nenhum milagre conseguiu ser imaginado naquelas horas, o acaso não pareceu que iria salvá-los de repente, e a sorte - ela que impera graças ao azar de tantos outros - não comparecereu. E, se tudo foi tão desesperador, assim o foi porque encontravam-se em contínuo estado de espera e não havia nada pelo qual esperar

    Abandonados que foram pelas imagens e pelos sons, pois os renegaram, deram-se conta que encontravam-se em meio a escuridão e à secura de uma realidade incontrolável. Perceberam que toda ilusão fora, ao menos, um chão para seus sentidos, ainda que construído de nuvens, e um porto para seus pensamentos, ainda que um porto estrangeiro.

    Não quiseram reconstruir toda a parafernália que os ligava às coisas e, de todo modo, seria tarefa aparentemente impossível. Acreditaram estar certos em renegá-la, em achar uma verdade profunda para as coisas, um pilar para todos os pilares. No passado, já haviam tentado fazer isso antes, sem muito sucesso - alguns alertaram. Mas eles continuaram. Talvez o erro deles é que tentaram por si próprios, separadamente, e nem ao menos deram-se conta do que faziam. Apenas retrospectivamente perceberam o que tentavam fazer, e a maneira - errante e solitária - como procediam. Mas, quando tiveram a consciência disso, já era tarde.

    Alguns suspeitaram que, se tivessem se dedicado a pensar conjuntamente, a achar consenso sobre as coisas em que acreditavam, talvez tivessem conseguido algum sucesso em seus ideais. Outros perceberam que a distância entre eles era muito grande, grande demais para se instituir qualquer ideal. Em todo caso já não havia mais tempo para eles. Não que lhes faltassem a força e o vigor necessários - que, de fato, não possuiam mais -, mas porque suas antigas crenças não dominavam mais suas vontades, não eram elas que habitavam como proeminentes em seus corações.

    Atravessados e atropelados que foram pela vida que lhes passou, aceitavam bem os momentos finais em que se encontravam, até porque julgavam-se conscientes de seus fracassos e, como não viam que sobre isso estavam enganados - e não poderiam, pois não há vida que não fracasse ao seu término -, sentiam-se consolados.

O Caminho Desconhecido (parte 4)

    Inventaram um dispositivo fabuloso ao qual se deu o apelido de "o Interceptador". Quando falavam sobre isso, outros consideravam loucura. A definição que davam era a seguinte: "o interceptador está em todo lugar, mas ninguém o percebe exatamente porque todos o percebem e porque em tudo o percebem". Evidentemente que achavam isso uma loucura pois não havia lógica numa proposição como essa.  O problema é que não se sabe quando e nem quem inventou esse enigma. Explicações, as mais diversas, foram dadas. Uma delas aprouve certo conjunto de pessoas, uma vez, na Época em que as Idéias ganhavam espaço mais uma vez. Era a Época em que julgava-se que as idéias estavam abandonadas, já que teriam perdido espaço para as Imagens e os Sons.

    Quanto ao enigma... Ele foi usado por essa gente que tinha interesse em descobrir as armadilhas que poderiam lubridiar a razão. Era um novo momento para as quase renascidas Luzes, pois já não se tratava de separar o duvidoso, o errôneo e o incompleto, do que era transparente, correto e perfeito. Eles queriam separar suas próprias vidas das Imagens e dos Sons e do que mais fosse. Essa tarefa era certamente uma utopia e eles sabiam disso. Mas acreditavam que esse era o caminho. Não chegaram a formular métodos ou sistemas. Charadas, enigmas, metáforas e metonímias eram as únicas armas possíveis, já que eram tão pouco palpáveis quanto suas vidas. Não havia ainda uma doutrina e os grupos eram muito divididos, o que talvez - como muitos disseram - tenha levado a um breve declínio desse movimento - se é que já podiam serem chamados de movimento.

    O interceptador estaria nas Imagens; ele seria as Imagens – é o que acreditavam –, mas não somente elas. O interceptador estaria nos Sons, ele seria parte dos Sons. Ele não seria algo incômodo às melodias, não seria algo insociável dos ruídos que o acompanhavam. Ele estaria também nos vários outros entes, até naqueles que não se conseguia notar a existência. Dizer que ele estaria em todos os lugares era uma generalização exagerada – na opinião de muitos. Mas ele – ou eles – estava – ou estavam – em muitos lugares. Não seria algo extrínseco às coisas onde aparecesse – ele parecia pertencer à natureza delas. Apesar disso ele, de fato, tinha, sob o ponto de vista do funcionamento das coisas, um status diferente delas que o acompanhavam. Mas não se podia – ao menos não os desavisados – vê-lo dessa maneira. Não se conseguia vê-lo como diferente das coisas que ele impregnava.

    O interceptador não seria, necessariamente, algo agradável e sedutor – embora a princípio fosse fácil imaginá-lo dessa maneira. Nas coisas repulsivas de que somos afastados e, da mesma forma, nas imagens, nos sons e nos outros entes repulsivos de que somos afastados, lá estaria o interceptador – ou lá ele poderia estar. Nos entes agradáveis, ele também teria um papel a desempenhar, papel que faria com que as pessoas fossem atraídas. Difícil seria imaginar como opera o interceptador. Difícil seria imaginar o que é o interceptador. Detectá-lo não parecia ser um empreendimento que pudesse ser realizado. Esconder-se seria sua característica, pois esconder-se não lhe era difícil. É porque estaria em tantos lugares, multiplicado em meio a tantas coisas, repetido em tantos momentos de nossas vidas, é por causa disso, dessa presença indiferente, que ele tornar-se-ia tão natural e sua atuação seria tão pouco percebida. O que seria o interceptador? O que ele interceptaria? Ele interceptaria, talvez, nossa atenção.

    Essa era a explicação dada por esses grupos que preparavam - sem o saber - o advento da Época do Imanente – a época das Novas Luzes, em que se buscaria a realidade que está subterrânea, principalmente, às Imagens e aos Sons. Para eles, portanto, a atenção era captada e redirecionada. Se haviam vários interceptadores, se as intenções que conduziam esse processo eram múltiplas, articuladas, se as relações entre esses interceptadores eram elaboradas, fragmentadas, desarticuladas, se apreender isso poderia melhorar a vida das pessoas, entristecê-las... Tudo isso era motivo para discussões e retóricas intermináveis.

O Caminho Desconhecido (parte 5)

    Muitos outros detalhes poderiam ser enumerados no que tange à noção de "interceptador". E posições diversas também poderiam ser descritas. Havia, inclusive, aqueles que defendiam que os interceptadores foram severamente anulados por grandes poderes opressivos e ditatoriais e que, por isso, não se deveria manipulá-los. Mas outros revidavam essa acusação e afirmavam que eles sempre foram utilizados, ininterruptamente, com a diferença que, nessas eras sombrias, os poderosos se incumbiam de fazer valer o conhecimento que tinham sobre esse assunto e utilizá-lo ao seu bel-prazer, seja pela força, seja valendo-se de sua posição no jogo dos entes. Não se tratava, portanto, de manipular, nem de instaurar algum projeto de poder centralizador e, quase sempre, desumano. Tratava-se de fazer transparecer, a todos os homens que se pretendiam livres, a existência dos interceptadores.

    Metafísica, invenção barata, jogada política... Disso tudo e de bem mais eram acusados os que acreditavam nessa e em outras idéias. E, segundo os próprios adeptos, seus acusadores não estariam completamente enganados. Sim – diziam eles –, se tratava de uma política, na medida em que não queriam mais serem servos passivos diante da realidade que lhes era imposta, fosse essa realidade “real” ou metafísica. Sim, era uma invenção. E não menos verdadeira, em suas experiências, do que o mundo material de onde fora abstraída e criada. Se lhes era difícil conceituar essa e outras idéias, isso não fazia com que elas fossem menos vivas em seus espíritos.

    Atrair e repelir. Esse era um funcionamento muito simples e muito fácil de apreender sobre os interceptadores. Entretanto muito mais poderia ser intuído, pois os entes não poderiam ser apresentados à consciência por uma operação tão simples. Passou-se a imaginar, inicialmente, toda uma gradação de atração e repulsa vinda por parte dos interceptadores. Mas isso mesmo ainda era uma operação simples. Se tivessem parado por aí, desconsiderariam, no quadro da vida que lhes era pintado, certos processos que exigem a ação de um interceptador. A saber: a ausência de certos elementos (como se o interceptador tivesse excluído uma figura do quadro de nossa consciência); a atenção que as pessoas dirigem a certas coisas e não a outras (como se o interceptador promovesse isso); a irrelevância que dão a algumas (por ação de um interceptador); o tempo que se reserva para apresentação dos elementos, a uns mais tempo a outros menos (lá estaria ele mais uma vez).

    Tudo isso e muito mais passou a ser vislumbrado. Imagens, sons, palavras e outros entes estavam sob análise. Mas também estavam em análise a ausência deles, a disposição, o tempo de "vida" em nossa percepção, sua irrelevância, sua notoriedade, os graus em que tudo isso poderia ser analisado (por exemplo, poder-se-ia imaginar diversos graus de notoriedade dos entes). E ainda explicitavam que nem todas as pessoas têm a mesma relação com os entes que lhe são apresentados à consciência e que, mesmo os entes, são "distribuídos" diferentemente às consciências. Todas as características relativas aos entes (como ausência ou presença na consciência, notoriedade ou irrelevância, longa permanência na consciência ou curta, os intervalos em que são percebidos) não os atingem igualmente e isso teria uma razão de ser - apontavam.

    Acusaram os adeptos dessas crenças de terem refletido sobre essas coisas separadamente. Contudo havia, segundo eles, um forte motivo para agirem assim. Os acusadores os questionavam: como saber que a "classificação" dada por uma pessoa era a certa e não a de outra? Como não tornar essa análise da percepção uma torre de Babel? Mas a resposta que davam era a de que somente análises diferentes poderiam ser cabíveis, já que as vidas e as percepções das pessoas são diversas. Com isso queriam dizer que, por mais que os interceptadores pudessem existir por si próprios (afirmação que já seria causa de discordância), eles afetariam diversamente cada indivíduo. Ainda que parâmetros bem amplos fossem dados, cada um deveria descobrir o que fazer com cada uma dessas diretrizes mais gerais. Sendo assim, possibilidades de uso também eram discutidas, mas nunca generalizadas ou sistematizadas (certamente que houveram os que tentaram sistematizá-las, mas eram uma minoria desses pensadores imediatamente antecedentes à Época do Imanente).

O Caminho Desconhecido (parte 6)

    O alvo sempre foi, inevitavelmente, inatingível, pois não há como ser diferente, haja vista o alvo nunca estar no mesmo lugar. Lamentar parece mais sensato, lamentar parece uma verdade mais real, lamentar parece a atividade mais sublime para uma existência que se encerra ao final. “Sempre haverão pobres”. Pobres da terra ou pobres do céu. Não há alternativa para isso. Não há alternativa para o desfecho final. Remoer, remoer, mas sem nunca desesperar. Sempre há esperança para mudar.

    Mas também sempre há esperança para continuar. Sempre há esperança para escolher. Não há nenhuma angústia nisso, ao contrário do que andaram dizendo por aí. Angustiar-se seria acreditar que há uma escolha certa que nos garanta a salvação. Se há uma salvação, ela não é para o Mundo – e isso nós sempre soubemos. Dessa feita, e repetindo, sempre há esperança. Mas só há esperança – e ela jorra plena, em todas as suas possibilidades – diante de nossa ciência de que não há uma esperança final e de que no final não há esperança – ao menos não para esse plano.

    Escolher preparar-se para Outro plano é uma escolha justa, mas até nisso se considera, inequivocamente, que essa é uma escolha que só pode ser feita até o limiar de nossos suspiros. Disso não se pode escapar. Essa fatalidade final é a ameaça de todas as outras fatalidades. Ela as desmascara de sua posição inatingível, ela as ruboriza do seu pudor implacável, ela as humaniza e lhes transforma - até certo ponto - em relatividades.

    Não é que tudo seja relativo. Não é que tudo seja permitido. É que o relativo torna-se permitido e o permitido torna-se relativo. A margem é variável, pois variável é a vida que em si mesmo não é a morte, mas vive à sua sombra. Não cabe à vida ficar cultuando o seu fim, pois isso não pertence à sua essência. Sua essência é pulsar. Mas ela não consegue manter-se no seu projeto ideal de existência. Vira e mexe é incomodada pela mudança. Sim, a mudança. Não o sofrimento. Por muito tempo disseram que era a dor que lembrava a vida sobre sua finitude, sobre seu limiar. Eles estavam enganados.

    É a mudança que lembra à vida a sua inconstância e a sua variabilidade. É porque não pode permanecer inerte em seu projeto exuberante que ela desconfia que, cedo ou tarde, essa mudança será tão drástica, essa variação do percurso por ela trilhado será tão radical que ela não resistirá, sucumbirá e não terá forças para reerguer-se. Ela perceberá dia após dia que suas forças não são ilimitadas, que as escolhas não poderão ser feitas para sempre e que, em cada transformação, advinda pelo passar do tempo, ela perderá um pouco de seu brilho e de seu esplendor.

O Caminho Desconhecido (parte 7)

    Lá, a verdade brilha solitária graças a ter sido abandonada pelas vozes incessantes. Lá, os sussurros têm o seu lugar e recuperam o seu valor. A alegria não tem aparecido por lá, se bem que pudesse. A presença não tem aparecido por lá, se bem que pudesse. Lá, os pensamentos trabalham velozmente em meio à escuridão. A razão torna-se presente em meio à desrazão. Ou se desvanece absorta no cansaço do tempo que teima em não parar. Não que diferente não pudesse ser.  Um dia, quem sabe. Mas esse dia só habitou os campos ideais da mente humana...
    Lá as palavras não imperariam. Se não é o lugar das Imagens, se não é o lugar dos Sons, não seria a incansável verbigeração que iria fazer com que as coisas retornassem a si. Nem acima, nem abaixo do limiar. Lá o silêncio, as palavras, as imagens, os sons e todas as outras entidades da consciência têm o seu lugar reservado e não são desperdiçados, nem se preocupam com intenções. Lá a mortalidade é a mortalidade e não admite um além.

* * *
    Para bem dizer a verdade, não foi sempre que os homens foram mortais – se é que agora o são. Há uma lenda que diz que a mudança aconteceu quando uma das criaturas ofendeu terrivelmente aos deuses e teve, como punição, que optar entre ir imediatamente para um lugar de penitência eterna ou arrepender-se diante dos deuses e, dia após dia, seguir todos os ordenamentos por eles prescritos, fazendo todos os trabalhos por eles exigidos, tendo sua vida subtraída, para todo o sempre, pela vontade deles.

    Entre escolher entre duas prisões, ainda que uma fosse mais cruel que a outra, a criatura pediu aos deuses que a transformassem em mortal. Teria sido só a partir disso que nasceram os homens, os primeiros e únicos seres inteligentes mortais – mas não se sabe se a vida para eles permaneceu ou não após a morte

O Caminho Desconhecido (parte 8)

    Um contraventor foi denunciado na pequena São Francisco. Alguns intendentes foram até a sua casa e lá encontraram a prova de seu crime. Ele estava de posse de quatro pares de tênis - o problema era que o homem vivia sozinho. Três dos tênis haviam sido pegos recentemente num departamento de roupas numa cidade um pouco maior que era vizinha. O governo anunciava mensalmente, via propaganda, aqueles bens que julgava indispensáveis naquele momento e em relação aos quais as pessoas deveriam ter mais controle ao retirá-los dos estoques espalhados por todo o país – tênis não era um dos bens mais requisitados. Leandro foi denunciado por um vizinho (Bruno) que, embora colega do homem, sabia que deveria fazer o que era justo. Todos se sentiam responsáveis por manter o Ideal vivo e concreto e sabiam que denunciar alguém querido seria o melhor para ele mesmo. Além disso o vizinho de Leandro sabia que, muito provavelmente, Leandro nem precisaria reparar o erro cometido. As consequências foram quase nulas, haja vista os tênis terem sido roubados a pouco tempo - não fizeram falta a ninguém, portanto. Por outro lado, o mais difícil era entender porque Leandro fizera aquilo. Não lhe era compreensível o plano do amigo de sobrepor-se aos demais companheiros, de enganá-los. Aqueles tênis não lhe eram necessários e ele deveria “sentir” isso - pensava.

    Bruno se assustou com o que ocorrera tão próximo de sua casa. Não era nada grave, fora um deslize do amigo, mas percebia que os tempos estavam mudados. Quando era mais novo (Bruno devia ter uns cinquenta anos) não ouvia dessas coisas que agora lhes pareciam ser tão frequentes. Outro dia ouviu na televisão uma palavra que não ouvia muito – a palavra era “punição”. Todos os crimes sempre tinham como correspondente a “reparação” e agora falavam em punição, em pena. Bruno não entendia porque as coisas estavam ficando tão diferentes. Gostava do mundo em que vivia e as coisas lhe eram tão suficientes que achava uma besteira enganar os outros por um pouco mais. Ele começava a sentir que a paz era abalada por palavras pouco pronunciadas como ambição e orgulho. Via que as pessoas começavam a cultivar o ódio em seus corações.

    Outro caso similar foi de um homem que fez os seus próprios pares de sapato. Sua desculpa aos intendentes foi essa: ora, eles são meus, eu os fiz. Mas os intendentes estavam prevenidos contra um tipo de argumentação como essa. A arma que possuíam era a inteligência e esta era uma arma poderosa. "Quem cortou esse couro, de algum animal, foi você?" E o homem respondeu que não. "Quem transportou esse couro até aqui e o restante do material desse sapato, quem produziu as demais matérias primas como a do cadaço... Foi só a sua participação que foi necessária para fazer esse calçado?" O homem, diante disso se calou, mas eles continuaram a argumentar pois davam muito valor ao diálogo e ao raciocínio lógico. "Foi sozinho que você chegou até aqui, foi sozinho que você têm conseguido viver e sobreviver?". Os intendentes eram muitos, existia alguma hierarquia entre eles e a obediência era necessária se se quisesse permanecer no ofício. Mas não havia grandes preocupações quanto a isso. Se a pessoa não se adequasse ao trabalho, haviam vários outros disponíveis. A doutrina deles era profunda, uma mescla da sabedoria popular e erudição.

    As pessoas acreditavam que a liberdade e a igualdade não se coadunavam, embora acreditassem que ambas eram muito importantes. Elas percebiam que a liberdade era aclamada aos quatro cantos, mas entendiam que a diferença afastava as pessoas terrivelmente e grades poderiam ser erguidas. Os historiadores alertavam que, no passado, a desigualdade já imperou entre os homens; mas isso não estava entre as preocupações dos cidadãos. Já teria se passado tanto tempo que haveriam apenas memórias imperfeitas dessas eras, e, é claro, haviam os documentos e os registros - sobretudo informatizados (muitos deles estavam conservados no ciberespaço). Então a igualdade foi erguida como o princípio soberano, pois ela seria o único princípio que poderia garantir os demais, inclusive a liberdade.

    Alguns refletiam sobre esses dias esquecidos, somente presentes nos registros (vastos por sinal) e na tradição, e constatavam que foi dado às pessoas um certo poder sobre as coisas do mundo, a fim de manipulá-las, adquiri-las, trocá-las. Se dedicavam a mostrar às pessoas que seus antepassados valeram-se desse poder para sobressair sobre seus semelhantes, fazendo-os trabalharem em seu lugar e terem menos poder do que eles - e fizeram isso por meio de artifícios inimagináveis - e cercearam alguns deles de todos os direitos, inclusive da vida que possuíam. A liberdade também teria ficado restringida, nessas épocas antigas, de modo que só se podia fazer o que fosse permitido por meio desse poder que não seria igual para todos. Da mesma forma foi cerceada a propriedade das pessoas, o direito de estarem nos diferentes lugares. A esse poder temível eles deram o nome de dinheiro (nome que já constava nos antigos registros) – mas nunca chegaram a presenciar os efeitos de uma coisas dessas, até porque seria impossível numa sociedade como a deles.

    Leis eram erguidas para defender a igualdade. Era a partir desse pilar central que todos os demais pilares eram construídos. A justiça era dinâmica e mutável, seguindo normas que não eram feitas para futuros possíveis, mas para presentes que se tornavam mutantes. A igualdade também era dinâmica e pensada de maneira complexa. Como os bens eram variáveis, como eles não eram idênticos a todas as pessoas, como umas regiões fabricavam uns bens e trocavam por outros, era compreensível que uma região tivesse bens que pudessem ser julgados melhores do que outros. Mas, na medida do possível, isso era amenizado. Difícil era aceitar desigualdades desse tipo num espaço mais reduzido - numa cidade. Ali o prefeito tinha que, por dever, buscar ao máximo possível tornar igualitária a situação de sua gente.

    Mas dessa complexidade toda é que nasciam novos partidos. Partidos da Mudança (isto é, contrários ao governo) queriam defender ferrenhamente sua região e a qualidade de vida de sua população. Outros mais de Posição (isto é, do governo ou a ele simpatizante) exigiam que todos os cidadãos do país tivessem a mesma qualidade de vida. Os Moderados se adequavam mais à defesa dos esforços regionais, mas sem transformar isso numa desigualdade flagrante. A igualdade, na opinião da maioria, não simpatizava com o desperdício. O uso de transporte individual ou familiar era demandado por integrantes da Mudança, mas a Posição o considerada deveras dispendioso. Esse tipo de transporte era a opção de uma quantidade expressiva de cidades, mas não da maioria. Mas em tais cidades não era permitido transporte coletivo, já que seus cidadãos tinham seus veículos individuais ou familiares. Então, nessas cidades, era a Posição, que reivindicava mudança.

O Caminho Desconhecido (parte 9)

    "As idéias são como os deuses: não modificam o mundo e não nos ajudam, se não oramos para elas". Nisso acreditavam o grupo dos transcendentes que, diferentemente dos imanentes, defendiam que as idéias não podiam ser idênticas as coisas e, mais do que isso, defendiam que não poderia haver um lugar específico para elas. Percebiam que haviam palavras tão pequenas e simples que possuíam imenso valor, enquanto outras eram maiores e complicadas, mas não diziam muita coisa, ao menos não à maioria das pessoas. Em nome de palavras se poderia declarar a guerra e a paz, salvar o mundo da fome ou nela fazê-lo perecer, libertar as pessoas ou aprisioná-las. Mas não eram todas as palavras que teriam tremendo poder.

    Os transcendentes estenderam essas reflexões que possuíam aos outros entes da consciência e deduziram que, da mesma forma, nem todos os entes possuíam o mesmo poder de ação sobre o mundo. Viram que a análise deles se aproximava, sobre certo ponto de vista, da análise dos imanentes. Eles também percebiam a capacidade dos sons, da imagens, das palavras e de outros mais de controlarem a existência humana. Porém tinham essa diferença em relação aos imanentes: supunham que não haveria essência que devesse ser buscada. Tudo era um campo em movimento em que uma palavra (ou uma imagem ou outro ente qualquer) era mais usada do que outra, mais adorada ou não do que outra. Os transcendentes não se importavam em descrever essas nuances - o que não significava que não as considerassem verdadeiras. Seria até mais adequado não chamar suas preocupações de análise, mas de síntese, porque o que lhes importava não era entender o mundo (ainda que alguma compreensão fosse a eles necessária e, nesse ponto, o trabalho dos imanentes lhes foi de grande ajuda), mas transformá-lo.

    Na realidade essa divisão descrita entre imanentes e transcendentes é interessante apenas para se refletir um pouco a organização dos grupos da Época do Imanente, pois a variação entre os grupos era mais complexa. De fato, a maioria não se afastava da busca de uma essência para as coisas, mas havia uma quantidade expressiva de grupos que se preocupavam mais em explorar as possibilidades de mudança para as essências e propunham novas formas de organização.

    Muitos entendiam que os entes não são livres e independentes dos demais, que eles formam uma grande teia uns com os outros. Supunham que certa configuração das peças, no grande jogo dos entes, fazia com que cada uma delas tivesse um certo valor. Uma mínima alteração no jogo dos entes poderia alterar o valor das peças. Se as consequências dessa pequena mudança poderiam ser grandes ou pequenas para o jogo em si, para o grande tabuleiro da percepção, isso dependeria do ponto de vista de análise. Assim, a perspectiva é que indicaria o nível da distorção em nível macro, independentemente se as mudanças na posição de vários entes fossem enormes ou reduzidas. "A ordem dos fatores poderia não alterar o resultado" - apontavam. Da mesma forma, pequenas distorções poderiam criar variação em todo o universo de entidades, mesmo sendo este incognoscível e grande demais para qualquer ente.

    Não era tão difícil aceitar essas idéais. O "amor" é uma singela palavra que tem muitos significados, que diz respeito a muita gente, que é associado a coisas importantes demais para as pessoas, que é visto como o clamor maior da alma. Mas, nas diferentes épocas, não teve sempre o mesmo sentido, não foi sempre visto da mesma maneira e isso tem a ver com sua posição no jogo do entes. O que é o amor? Como vivê-lo? Como pensá-lo? Como falá-lo? Como transmiti-lo? Essas perguntas levam-nos a óbvia descoberta de que o amor não é suficiente a si mesmo e outros entes terão que vir ao seu encontro para lhe dar sentido. Se pensou o amor diferentemente conforme os lugares e os tempos: amor proibido ou amor platônico, arrebatador ou romântico, eterno ou fugaz. O próprio fato de o amor ser algo tão importante não parece ser natural, parece uma "situação" que se instala pela sua posição no jogo dos entes. Pois nem a importância do amor foi sempre a mesma, conforme, por exemplo, era dedicado a Deus, à pátria ou a uma mulher (ou, ainda, a mais de uma).

    Para os mais inclinados às idéias transcendentes, as coisas eram vistas, portanto, como que separadas dos entes, mas a hierarquia entre esses dois grupos (coisas e entes) não lhes parecia facilmente identificável, na medida em que parecia que tanto a vida era abalada pelas entidades que chegam à consciência, como estas não tinham valor em si mesmas, eis que dependiam das demais entidades e eram abstraídas a partir das coisas reais que povoam o universo.

O Caminho Desconhecido (parte 10)

    As pessoas ainda vêem o Sol de vez em quando; vêem a Lua de vez em quando; vêem o mar de vez em quando. Quanto ao entretenimento até que se satisfazem com coisas parecidas com mais regularidade. Dizem que vivem a consumir e que consomem de maneira tão semelhante quanto lhes é demandado. Mas esse consumo é somente uma rotina, produzida por efeitos tão artificiais quanto os produtos comprados. Se isso é um ponto de encontro entre as pessoas, não parece ser o dos mais sublimes. Mesmo esbarrar com a natureza, lembrar-se de respirar, descobrir, num dia qualquer, que o céu é azul... isso tudo não são pontos de encontro. Não mais. São pontos de desencontro (maravilhosos, sem dúvida, mas ocorridos por acidente) de nossa realidade mais habitual.

    Houve um tempo em que as pessoas olhavam a luz do Sol, que escreviam poemas e textos, que se maravilhavam com o brilho das estrelas, que se fascinavam pelo silêncio da noite. Elas se identificavam com os sentimentos que essas atividades suscitavam. Essas coisas se tornaram menos frequentes. É estranho que as pessoas pudessem se reconhecer nessas coisas, antigamente, mas isso não as fazia sentirem-se menorizadas por isso. O Comum aqui era uma palavra com sentido profundo, que lhes redirecionava para o mistério e a beleza das coisas. O Comum de hoje não é aprazível à existência e é quase contraditório com o que era antes. Tornou-se sinônimo da impaciência da correria, tornou-se sinônimo da insônia. O silêncio, e o simples apreciar do barulho da chuva, não têm mais lugar.

    Faremos então o lamento de um tempo que não mais voltará, faremos a sinfonia melancólica dessa existência perdida, faremos narrativas sem fim sobre o nosso trágico momento? Talvez... Talvez, também, as coisas não tenham sido somente como as imaginamos. Talvez faltasse àquelas épocas um pouco do barulho de nossos espetáculos, um pouco da agitação de nossos pensamentos e aflições, um pouco de nossa mutabilidade. Resta-nos somente indagar: não teria sido essa impossibilidade, deles, de ter experimentado a agitação gasosa de nossas vidas, a mesma impossibilidade que nos impede, agora, de livrar-nos dessa agitação? Não será essa antiga impossibilidade a mesma que não nos permite parar e criar novos caminhos?

    Sim, criar caminhos, porque todas as escolhas já nos são sempre delineadas de antemão. Todas as cláusulas já nos foram redigidas. Todas as lâmpadas – nos dizem – já foram acesas. Restará ciência ainda não desenvolvida, religião ainda não formada, vida ainda não vivida, questão ainda não formulada? Haverá ainda um ponto de encontro, entre as pessoas, que deva ser descoberto ou buscado?

O Caminho Desconhecido (parte 11)

    O rio até pode passar pelo mesmo lugar: as águas é que são diferentes. Assim os entes não são tão diferentes das coisas como se poderia supor, exceto por essa sutileza que nos faz, por exemplo, perceber que as águas são diferentes. A primeira água que passa é a que nos fica e nos sossegamos com a certeza de que a outra que virá será dela o reflexo - mas não o é. As águas são várias, várias são as suas naturezas, as suas substâncias, o tempo e o lugar por onde passam, várias são também as margens que as delineam, as rochas que as obstaculizam ou que controlam seu curso e sua força. São também diferentes em quantidade, não só em qualidade e em muitas outras coisas que agora não somos capazes de imaginar.

    Podemos dizer que, cada uma das águas, talvez cada parte de cada uma delas, são entidades. Mas não se deduz isso só pela diferença no espaço e na substância. A disposição delas no tempo também as tornam entes únicos. Talvez sejam, no aqui e no agora, o que já não serão no segundo seguinte. Tudo que as individualizaria no tempo e no espaço - e talvez em outras dimensões - seria capaz de as tornarem isso que são: entes. São, portanto, muito mais do que as coisas - embora também pareçam ser coisas.

    O adjetivo. Talvez ele nos revele o que seria isso enfim: um ente. Não falemos tão vagamente sobre o amor. Falemos, pelo menos, sobre o amor platônico, ou o proibido ou o impossível e sobre outros mais. Não falemos sobre as águas, mas sobre as águas do mar, as águas do rio, as águas de um rio que passa em nossas vidas. Não são as mesmas águas, nem o mesmo amor.

    Ora, e daí? Poderiam perguntar. E daí muita coisa. Pois rios poderão, então, serem, finalmente, criados. Águas serão, inesperadamente, produzidas. Campos antes nunca existentes serão irrigados. E os ideais... O ideais que sempre resistiram a nos perseguir... Poderá o ideal, quem sabe, desistir de nos fazer amargar à sua espera e desistir de nos submeter à sua adoração. Quão doce será o dia em que o ideal deixará de ser uma aspiração e, de tão presente em nossas vidas, sumirá de nossas súplicas e de nossos pensamentos! Até lá, os desmascaremos. Ou os retomemos, pelos meios que julgarmos mais adequados.

O Caminho Desconhecido (parte 12)

    As Imagens sempre permaneceram visualmente proeminentes. Exuberantes em formas e cores, estendiam seus domínios sobre a percepção humana, cultivando no espírito dos indivíduos o fascínio que a visão exerce sobre eles. Texturas, contornos e as figuras mais admiráveis que se possa fantasiar prestavam seus serviços a elas. Suas fronteiras tornaram-se vastas e passaram a comandar grande parte dos processos que guiam a mecânica da vida.

    Os Sons são mais antigos, mas nem por isso menos importantes. Seus domínios não são menos vastos do que o das Imagens. Por vezes em comunhão com essas entidades, sobrepondo-se sobre as mesmas em muitos pontos, tornaram-se delas o sustentáculo, tornaram-se a sua força. Em vez de entrarem em disputa, em vez de arriscarem a força de um e de outro, uniram-se a elas e, sob essa condição, conservaram grande influência sobre áreas que mantiveram-se apenas sob sua atuação.

    O mesmo destino ficou reservado aos Odores, às Sensações e aos Sabores. Todos eles passaram a prestar seu culto à visão. Diante do poderio dessa dinastia, tiveram que adaptarem-se. Mas nem todos eles submeteram-se com tamanha passividade.

    Em meio ao quadro estabelecido, algumas imagens questionavam as outras, colocavam-nas em situações embaraçosas, apontavam sua incompletude, denunciavam o apoio que recebiam dos demais entes e resistiam. Com essa primeira rebelião apareceram outros mais, como os sons desviantes, os odores desmerecidos, os paladares não vigentes e as sensações não faladas. Ah, sim, a fala... As Palavras vieram em auxílio deles todos para defendê-los e lhes darem possibilidades de existência.

    E foi assim que a moldura antes plana e uniforme recebeu uma curvatura considerável. E foi assim que o horizonte antes visível e plenamente constituído tornou-se incerto e indefinadamente redefinido. E foi assim que o limiar para a mudança tornou-se a regra e não mais a exceção.

    Algumas pessoas se indagavam: Onde estão as palavras? Onde estão os sons? Onde está a liberdade? Onde está a igualdade? Está aqui? Está acolá? Onde está? Onde não está? E lembravam-se dos ensinamentos antigos que lhes diziam: "a liberdade é a liberdade, a igualdade é a igualdade: e nada mais do que isso". 

O Caminho Desconhecido (parte 13)

    Imanentes e transcendentes têm se interrogado das mesmas coisas, mas de maneira diferente. Os primeiros, sempre ávidos por encontrarem um significado para as coisas, um sentido para a vida, uma causa para tudo. Os outros, sempre a ignorar propositadamente a isso tudo como se nada merecesse explicação, como se as coisas não fizessem nenhum sentido, como se os efeitos fossem importantes em si mesmo. Através do séculos sempre se pôde encontrar esses dois grupos bem característicos, mas, foi apenas no início da Época do Imanente que eles receberam as qualificações e as individualizações necessárias. Foi apenas nesta Era que se denominaram como tais. Não que isso represente algum evento importante em si mesmo. Bem... os imanentes talvez diriam que sim - e os transcendentes diriam que isso varia de acordo com o ponto de vista.

    Por isso o corte histórico delimitado não agradou tanto aos transcendentes. Os Imanentes apontavam que os Dias Antigos não mais retornariam. Essa divisão eclíptica e temporal - na opinião dos transcendentes - desconsiderava todas as idas e vindas na história da humanidade e ainda, subliminarmente, parecia apontar que nunca haveria tido melhor era do que a atual. Os transcendentes não poderiam acreditar num paraíso desses. "Não há paraíso eterno para os mortais" - diziam eles. Os imanentes se revoltavam com essa postura de seus críticos e retrucavam: "olhem para o passado, parem de refletir sobre nuvens". Eles (os imanentes) criaram até um calendário - bem o sabemos - e ainda contam 120 anos do que, segundo eles, teria sido a "Grande Mudança". O calendário é até visto com simpatia mas - concordemos - não tem nenhuma função prática. As pessoas ainda se consideram em 2193 D.C.

    Como o mundo não se transformou na catástrofe profetizada? Como as geleiras não derreteram fatalmente, como o aquecimento foi controlado e como a igualdade foi estabelecida? Mas os transcendentes, menos otimistas, viviam a apontar os furos e contras, viviam a profetizar a reviravolta, seja porque alguns a temiam, seja porque alguns a desejavam.  Alguns aproveitadores, que querem a volta das "antigas liberdades", passam agora a integrar o movimento transcendente que já conta, juntamente com o dos imanentes, com uns 150 anos. Ambos se encontram em franca divergência - temos ciência. Mas - apesar de toda a oposição doutrinária que sempre possuíram - os dois grupos, no período que imediatamente antecedeu e sucedeu o Grande Ano, estavam no mesmo lado.

    Não foram eles - imanentes e transcendentes - que deram início a "Derrocada de 73", já que ela - assim como as demais Derrocadas - tiveram sua força nas reivindicações populares. Mas seus princípios e seus ensinamentos foram utilizados para constituir as bases do governo e grande parte da atuação dos intendentes advém de suas reflexões. O poder deles portanto os precedem, advém do respeito às divagações a que têm se dedicado ao longo do últimos séculos. Embora cheios de peripécias e lantejoulas, o saber desses grupos tem se coadunado com o saber popular, pois mescla-se a ele em muito pontos, por muitas vezes está a ele submisso, simplesmente preocupado em fazê-lo falar, em fazê-lo ser respeitado. Tenta por a descoberto as verdades não faladas, aquelas muito mais vividas do que imaginadas. Mas, a apoiar isso tudo, sempre estiveram aquelas reflexões e justificações mais abstratas ou, digamos, mais sublimes, tais como as que envolvem o tema das essências e o do lugar das entidades.

    A Grande Derrocada, como o nome sugere, foi a queda do antigo regime (houveram algumas precedentes e outras a sucederam, mas essa trouxe as alterações mais significativas). Se houve conflito foi em escala muito pequena. As profecias de destruição do mundo pela ação do homem, por si só, já foram fortes motivos para a mudança. Não que o mundo tenha se tornado o paraíso na terra - os transcendentes estavam aí para apontar isso e propor modificações (e as modificações, ainda que não todas, ocorriam e eram mesmo indispensáveis ao funcionamento do novo regime) - mas os antigos medos, tais como a miséria e a catástrofe climática, foram vencidos. A desigualdade foi combatida ferozmente - "o que não significa que novas desigualdades não tenham surgido", filosofavam e filosofam os transcendentes. Com a descentralização do governo, ouve mais espaço para as diversas regiões organizarem-se para cumprir as metas que foram definidas na nova constituição nacional. Volta e meia haviam divergências entre os estados e o governo central - e que tinham que se resolvidas na justiça -, mas essas querelas eram vistas com bons olhos (hoje em dia, nem tanto). Essa Dialética do Poder era sempre vista positivamente e o mais importante: as pessoas - verdadeiramente - acreditavam nela.

    Nos anos das Derrocadas, houve mais debate do que espírito de revolta. Houve mais discussão do que contestação. As dificuldades mundiais, ironicamente, favoreceram isso e sensibilizaram as pessoas a refletir sobre o seguinte: ou todos remavam para o mesmo lugar ou ninguém sobreviveria.

O Caminho Desconhecido (parte 14)

    Apesar do momento fatídico que foi "73", as mudanças já vinham sendo discutidas desde muito tempo antes. Outros já haviam tentado implementá-las anteriormente, mas faltou a coragem e a oportunidade necessárias para torna-las mais consistentes e abrangentes.

    Havia, de fato um grande nevoeiro de idéias, notadamente, nas épocas mais imediatamente antecessoras a "73". Ainda jovens nos pensamentos dos reformadores - ou mal formuladas ou mal articuladas com as demais - as novas aspirações ainda se esfumaçavam nas mentes e eram tão pouco visíveis, palpáveis e delineadas quanto as intenções do homens. Paulatinamente foram se revelando a eles, por meio de suas reflexões (por meio, sobretudo, dos imanentes e dos transcendentes).

    Por isso, num primeiro momento, antes do Grande Ano, um projeto novo de organização social não pôde prevalecer. Mas foi, enfim, delineado pelos grupos da Época do Imanente e, assim, a dispersa e nebulosa correnteza de divagações tomou forma e concretude.

    Até o Grande Ano, ocorreram mudanças, mas elas estavam alicerçadas no antigo regime e, portanto, na manutenção da diferença entre os homens. A realidade tornou-se diversa demais dos antigos ideais, ou mutante demais para acompanha-los (ou mutante demais para ser por eles acompanhada); e a camuflagem, erguida por meio da manipulação das entidades, não conseguiu mais se perpetuar. Mas a crítica dos transcendentes continuará, no decorrer na Época do Imanente, sendo essa: a camuflagem.

O Caminho Desconhecido (parte 15)

    Não é o horizonte que buscavam, mas a região temporal e espacial que lhes poderia circunscrever, mas nunca lhes circunscreceu. Acreditavam em algo que nunca se viu, mas que se podia ver a toda hora. Acreditavam no agora que nunca chegou: não se tratava, para eles, de esperar alguma aurora. Na verdade, a aurora lhes era acessível, estava logo ali, bastava rumar para ela. Ainda assim isso nunca era feito. Por quê? Era sobre isso que se indagavam.

    Se questionavam: Onde estão as palavras não ditas, as disposições não implementadas, os sons desprezados e as imagens excedentes? Onde deveriam estar, onde poderiam estar, onde nunca lhes são permitido estar?

    Na verdade procuravam um renascimento para o estabelecido - desejavam uma mudança para as coisas. Quão interminável papel, não é mesmo? Visto que, se o amanhã se torna presente, ele já se torna, nesse ato precário, tão somente onipresença passageira e provisória, diante desse outro amanhã que, inevitavelmente, logo se anuncia e o qual logo se passa a desejar como tão pleno quanto aquele anterior. O instante presente - que outrora foi um amanhã desejável - passa a não conservar mais o seu esplendor, diante do novo que pede passagem.

    Não sem conflito, evidentemente, é que essa regra irrevogável da existência se manifesta. Mas só se pode tomar essa mutabilidade como uma fatalidade se se desconsidera a possibilidade de retorno do Já-vivido. Nunca, certamente, idêntico ao que outrora se manifestou. Nunca, certamente, recortado pelas mesmas bordas, nunca manifestado nas mesmas coisas, nunca regido pelo mesmo movimento de ondas.

O Caminho Desconhecido (parte 16)

    As palavras estavam aprisionadas. Muitas forças as continham e as mantinham escondidas ou mesmo inexistentes. Algo insistia em envolver toda possibilidade de surgimento das mesmas. As exigências eram tão enormes que sempre conduziam-nas para caminhos já conhecidos, para veredas já pavimentadas. Isso era não só desgastante para aqueles que eram responsáveis por fazerem-nas virem a luz, como também era lamentável que as idéias não pudessem se manifestar livremente, ou mesmo que não se pudesse sentir esse puro prazer de dispor as letras a seu bel-prazer, a escrever pela simples liberdade de assim o fazer. A escravidão às intenções, aos desejos e aos ideais não possibilitava que caminhos inimaginados pudessem se revelar inesperadamente, por meio da escrita. Esta já havia programado-se previamente e, ainda que isso lhe desse associações magníficas com as mais diferentes formas, não se parecia ter muito maravilhamento com o singelo ato de escrever.

    Por um lado, se não se podia surpreender-se com as idéias, devia-se ao fato de serem incessantes. Isso dava a impressão, não de tudo falsa, que elas eram ilimitadas e variadíssimas. Mas, como vinham previamente e em grande quantidade, não permitiam que outras viessem; não porque deliberadamente excluíssem as outras, mas porque não davam pausa e nem descanso à consciência, de modo que as outras não tinham oportunidade de, subitamente, surgirem. E mesmo que essas outras idéias surgissem - e às vezes surgiam - elas ficavam esmaecidas. Ainda que chegassem a serem percebidas, não tinham a mesma intensidade que as outras.

    Por outro lado a questão era o esquecimento da possibilidade da escrita pela escrita. Os pensamentos eram sempre prévios, as idéias eram sempre antecessoras, eram todos eles sempre visualizados, sentidos, delineados, imaginados e só depois, secundariamente, eram escritos. A escrita vinha sempre em segundo plano e, o pior de tudo, isso era visto como normal, como inequívoco, ou seja: não se poderia conceber a escrita - e sua organização em frases, parágrafos e textos - como anteriores ao que poderia significar.

    Até certo ponto isso seria sensato e lúcido. Mas o problema é que isso tornou-se um dogma. É como se tivessem esquecido da quantidade de vezes em que os textos escritos pelas pessoas eram alterados. Aqui, uma palavra repetida, que acabava sendo mudada - pelo autor - por um sinônimo, para que o texto se tornasse mais polido. Ali, numa poesia, uma palavra com certa terminação que era escolhida em detrimento de outra similar, para que se produzisse uma rima e, assim, se conseguisse a sonoridade desejada para seu poema. Denunciava-se, por essas preferências, e sem o admitir, a beleza que se esperava de tais textos; mas, geralmente, relegava-se tal beleza a um segundo plano, já que se dava muito mais valor ao sentido produzido.

    A bem da verdade, a escrita parece estar além até de toda consideração pensável. Está além até dessas apreciações sobre sua grafia e seus sons. O lugar de sua vivacidade parece que é no aqui e no agora e tão somente aqui e agora. Viva, aqui, e para todo o sempre, enquanto aqui estiver. Apesar disso, nos iludíamos de que o destino para onde ela nos remetia era sua verdadeira casa, era seu verdadeiro lugar; e, nesse ato irrefletido, submetíamos a intangível beleza das letras a nossa pequena existência.

O Caminho Desconhecido (parte 17)

    Subiu a íngreme colina avistando a pequena cabana que ficava mais próxima a cada vez que seus passos dela o aproximavam. Isolada e sempre perseguida em seus sonhos lá estava ela, agora visível, esperando que ele a adentrasse e lesse o antigo livro do conhecimento. Buscado ao longo de toda a sua vida, de repente lá estava ele, mais próximo do que nunca, finalmente aguardando sua leitura. O livro por detrás de todas as guerras, mas também por detrás de todas as bençãos da humanidade estava lá, mais uma vez, pronto para ser lido por mais um aventureiro perseguidor da verdade.

    Vindo de terras distantes, lá estava mais um desbravador dos mistérios da vida, no momento iminente de sua iluminação, seja para o azar ou para sorte de muitos, ou ainda para ambos. Lá, no mais ancestral dos montes, e assim novamente, aguardar-se-ia os novos destinos para o mundo. Nunca houve quem lesse o Grande Livro e não mudasse significativamente os rumos das pessoas. Não seria diferente daquela vez.

    Investido de todos os desejos e, ao mesmo tempo, de todos os seus ideais a batalha estaria apenas prestes a iniciar. Mal poderia saber o viajante que os momentos mais difíceis, as decisões mais cruciais, as jornadas mais fantásticas ainda estavam para se delinear. Pois seria nas escolhas sobre o que fazer com aquele material tão precioso, que recolheria dos manuscritos eternos, que residiria o crucial de suas grandes façanhas.

    Seria nas próprias folhas que optasse por ler que estaria a grande majestade de sua viajem. Seria também na sua decisão entre divagar sobre algumas das escrituras lá existentes - e assim entendê-las mais profundamente para articulá-las com as que lhe eram complementares - ou dedicar-se a ler um pouco mais. Seria em todos esses caminhos percorridos, em detrimento de outros que a ordem de outras leituras possíveis lhe poderiam proporcionar - seria nisso que residiria algo de inigualável em relação a todos os demais peregrinos que visitassem as sendas oferecidas pelo Grande Livro. Nenhuma outra viajem lhe seria mais possível e, ainda assim, era nessa impossibilidade, nessa unicidade que emanava um certo esplendor.

    Ao final do dia, desceu a grande colina para nunca mais retornar, já que só era dado aos homens uma possibilidade de adentrar a velha cabana. Estranhamente sentiu dentro de si o mágico mistério que a experiência de ler o Grande Livro proporciona. Ao mesmo tempo em que não poderia nunca mais lê-lo, percebia a graça de poder ler aquelas páginas únicas que foram reservadas, seja pela sorte ou seja pelo acaso, somente a ele.

O Caminho Desconhecido (parte 18)

    Apesar de acessível a todos (o que não significava facilidade de encontrar a lendária colina), a leitura do Grande Livro exigia sabedoria e sagacidade. Evidente que o Grande Livro não era um livro qualquer, já que os principais segredos da humanidade nele estavam contidos. Mas, exatamente por ser grande, era extenso demais para caber em um só volume, de modo que existiam muitos volumes divididos em muitos índices. Volumes não vastos o bastante diante dos inúmeros escritos possíveis, mas suficientes para revelar os principais mistérios da vida ou, quando difíceis demais para a compreensão dos viajantes que lá chegavam, havia indicações de onde procurar os princípios mais fáceis de compreender ou, pelo menos, os caminhos e as dicas para se atingir os conhecimentos mais difíceis. Assim, os volumes eram divididos não só em assuntos, mais em níveis de capacidade de apreensão.

    O material era tão extenso que alguns, talvez mais inteligentemente, logo desistiam de dedicar o tempo que tinham a procurar os segredos que buscavam, e logo punham-se a assimilar outros conhecimentos do Grande Livro. Estranhas forças guardavam e zelavam pelo Livro da Vida e o modificavam. Sim, o Grande Livro não era estático e mudava de acordo com o mundo e as pessoas e suas necessidades. Alguns suspeitavam que suas páginas eram modificadas a cada viajante que adentrava a velha cabana, mas os próprios viajantes que lá estiveram garantem que a organização encontrada por eles era a mesma e deduziram que a mudança, que de fato já foi constatada, deva ocorrer de séculos em séculos. Dizem que as mesmas forças que regem e constituem o universo é que são as responsáveis pela manutenção da cabana.

    Verdade que embora não tenha havido alguém que tenha sido impedido de entrar na cabana, muitos ávidos por encontrá-la saíram dela sem nenhum conhecimento que julgassem valioso (embora o fossem), enquanto outros, que a encontraram por acaso, sentiram-se privilegiados por isso. Nenhum dos que nela adentraram lembram-se de como chegaram até ela, pois era preciso que se esquecessem do caminho percorrido para que valorizassem o prêmio que agora recebiam. Esse detalhe é importante de ser destacado. Todos aqueles que lêem o Grande Livro esquecem de sua vida passada, recebem uma nova vida, mas, por isso mesmo, perdem a vida que possuíam.

    Acontecia, bem verdade, de viajantes como esses reencontrarem antigos parentes - os quais não conseguiam lembrar - e isso chegava a ser triste e desolador, tanto para aqueles que não mais sabiam nada de emotivo sobre o passado (nada, mais precisamente, sobre amigos, parentes, emoções vividas, eventos importantes), quanto para esses entes, agora, irreconhecíveis. Apenas guardavam os conhecimentos práticos e teóricos sobre a vida e reminescências muito fracas, como se o vivido ficasse guardado em suas almas, mas não em suas mentes.

    Alguns, entretanto, escolhiam a outra opção que era dada aos que subiam a íngreme colina: escolhiam esquecer os novos e sábios conhecimentos adquiridos e voltar para a antiga vida. Essa opção era a menos escolhida, pois a maioria ficava fascinada com os novos conhecimentos, que de fato poderiam ser magnânimos. Chegava a ser paradoxal. É como se com o novo conhecimento tivessem adquirido automaticamente um desconhecimento: um desconhecimento sobre a preciosidade da existência percorrida até então.

O Caminho Desconhecido (parte 19)

    Nunca as velhas perguntas estiveram tão insistentes, no espírito dos homens, do que naqueles tempos próximos ao Grande Ano. E, dentre elas, parece que nunca o questionamento "quem somos nós" tanto os afligiu, tanto os importunou, quanto no citado período.

    "Os homens são o que são, mas muito menos por escolha", diziam os grupos da Época do Imanente. Mas essa operação se passava em surdina, na mesma surdina mantenedora da ação dos interceptadores. Em meio à exposição às imagens inintermitentes havia um incolorado não notado, uma ausência fundamental das cores e das formas. Em meio aos sons ininterruptos, havia um silêncio imperceptível. Em meio às entidades inumeráveis, havia um movimento irrefreável que delegava à agitação - das formas, das cores, dos sons, das palavras e de outros mais - um espaço que não podia ser ocupado por outras configurações. Os transcendentes afirmavam: "não que a mudança seja justificável; contudo, não é justificável afirmar que não deve haver mudança". Já os imanentes se dedicavam a expor as causas e as razões de todo esse funcionamento - na opinião deles - manipulador.

    Apontou-se que os entes não surgem de qualquer lugar: surgem de lugares específicos. Outros, antes do movimento imanente e transcendente, já haviam apontado isso. Mas essa crença ganhou força, densidade e muitos adeptos (se não fosse assim, é possível que não tenha havido a Época do Imanente) e se reuniu a muitas outras idéias. Dizer que os entes surgem, conforme os lugares de onde nascem, fez com que se levantasse a hipótese de que a livre expressão não era para todos ou, ao menos, as pessoas deveriam possuir diferentes liberdades de expressão, que, essencialmente, não seriam verdadeiramente liberdades, mas destinamentos. Não é que as pessoas fossem sempre obrigadas a exprimir pensamentos que seriam totalmente diferentes delas mesmas - ensinavam. Mas teriam sido destinadas a pensarem como pensam, teriam sido preparadas ao longo da vida a serem como são e, sim, sofreriam algumas coações mais evidentes.

    Se um professor - exemplificavam - zela pela educação, pelo progresso de seus alunos e acredita que seus estudantes são o futuro do seu país, é porque ele foi levado pela vida a nisso acreditar - apontavam. E, mais do que isso, esse professor precisa acreditar nisso, ele precisa ter o seu trabalho como parte de si (e, de fato, é isso que ocorreria por fim) seja para que permaneça coadunado ao papel de professor, seja porque precisa de tal papel para viver e sobreviver, ou para manter seu status na sociedade. O problema não é que suas crenças sejam em si falsas ou verdadeiras (o que se poderia, de fato, questionar), mas o problema é que ele não poderia pensar de outra maneira (e, se pensasse de outra maneira, poderia estar sujeito a outras coações; isso porque poderia ter escolhido ser engenheiro, padeiro, comerciante, etc). Supor que essa atividade (educar) não afetaria a vida pessoal do professor (sua subjetividade, o tempo que dedica de sua vida para outras coisas, sua visão de mundo e seus valores) seria - na opinião de transcendentes e imanentes - uma ingenuidade. E dizer que o ser humano por trás do professor não se entrecruzava ou mesmo coincidia com o seu papel profissional, seria desconsiderar e mascarar o mecanismo que o faz ser quem é.

    Que o trabalho mudava as pessoas, isso até que era algo mais perceptível, inclusive porque muitos já haviam falado sobre isso. Na opinião dos grupos da Época do Imanente, revelar essas operações escondidas onde mais fosse, seja para reorganizá-las, seja apenas para denunciá-las, era sempre visto como uma tarefa louvável e importante, pelo menos para aqueles que almejavam atingir as velhas utopias. Estas consistiam seja em devolver as entidades aos seus devidos lugares (utopia imanente), seja em desmascarar velhas organizações de entidades que se mostravam como verdades absolutas (utopia transcendente).

O Caminho Desconhecido (parte 20)

    Quantas coisas que se gostaria de fazer e não se pode. Como não lamentar por isso? Como não lamentar por uma vida apenas, se infindáveis outras seriam necessárias para fazer tudo aquilo que se tem vontade, para refazer tudo aquilo que se deveria ter feito de outra forma, para fazer diferente do Mesmo, para fazer diferença?

    Como pensar em grupo se não se é grupo? Como se juntar a massa se não se é massa, se não se é falido? Tem gente das quais se gosta, tem gente que gosta da gente. Mas não se é plural, se é indivíduo. Não se trata de dizer "estamos nem aí pro mundo", não se trata de revolta, nem do próprio umbigo. Se trata de lamentar, somente isso.

    Por isso aqui se registre o que se é mais doído: o pouco tempo que nos resta. Não é para que todos saibam, não é para que nos dêem ouvidos. É para que não sejamos calados por falsos profetas, é para que não nos iludam que flutuamos nessa nossa inabstraível terra. Além do horizonte não se chega, não se vai, ninguém viu e se viu não costuma voltar pra contar.

    Não se trata de criticar. Falem o quanto quiser, cantem hinos de louvores às sereias, que não existem, mas são realmente muito belas - e as que existem, às vezes mostram sua verdadeira face assustadora. Mas nos deixem lamentar. Levantemos de manhã, tomemos o café, há belezas no dia a se percorrer, não duvidemos disso. Dias assim não se deveria menosprezar. E esse temor é nossa cegueira e nossa lucidez. Mas o amanhã, nem sempre poderemos esperar.

    Pois o amanhã poderá; será, talvez. O que foi ontem não mais voltará. - Pleno dia de hoje: pena que não o veremos outra vez! E tua morte, assim, tão irrevogável, não será esquecida.

O Caminho Desconhecido (parte 21)

    A utopia transcendente parece inconciliável com a utopia imanente. Apesar disso, parece que ambas resolveram ignorar suas diferenças naqueles anos próximos a 2073 D.C. Elas convergiam para um mesmo ponto, naquele momento. Os imanentes viam como premente a mudança, já que, para eles, as entidades teriam perdido seu valor original (ou ideal), embaralhadas entre tantas outras, mitificadas ou mistificadas, desmercidas ou esquecidas. Os transcendentes viam nisso uma possibilidade de questionarem o estabelecido, de atacarem as verdades inatacáveis, e assim, quem sabe, libertarem-se das amarras invisíveis da alma.

    Muitos dizem que a filosofia imanente saiu vitoriosa e que os transcendentes ficaram deslocados e perderam espaço. Parece que essa versão da história é pouco depurada. Uma segunda versão aponta que não havia possibilidade de vitória para a filosofia transcendente, não podia ser ela a integrar os novos planos políticos nacionais, nem ser ela a voz dominante nos espaços culturais, já que ela é uma filosofia de contestação. Contudo, há ainda um terceiro ponto de vista, a saber, o de que foram os transcendentes os verdadeiros vitoriosos, no sentido de que foram eles que chegaram mais perto de seus ideais, de sua utopia. Não só foram capazes de colocar em evidência a frágil e pobre base na qual se sustentavam várias organizações de entidades, supostas como guardiães de verdades eternas, como possibilitaram o surgimento de novas organizações, seja por ação deles mesmos, seja pela ação dos imanentes, ou seja pela ação de muitos outros mais. Assim, se renovaram os postos emissores de entidades - ou porque se transformaram, ou porque viram-se em concorrência com outros (já que novos emissores nasceram) ou porque simplesmente foram substituídos ou se deixaram substituir.

    Com isso os transcendentes puderam continuar a fazer o seu trabalho da forma livre de antes, pois não eram a voz dominante, apesar de muitas das novas organizações de entidades valerem-se, consciente ou inconscientemente, dos ensinamentos transcendentes. Conforme os anos iriam se passar, após 73, a ruptura cultural produzida pelos grupos da Época do imanente foi de tal forma assimilada que a origem dessa mudança passou a quase não ser percebida e muitas coisas foram esquecidas, no que diz respeito a essa hereditariedade do pensamento presente (isto é, deste nosso ano de 2193).

    Dizer que os transcendentes ficaram contra os imanentes - isso após 73 - por comodidade, parece ser uma afirmação simplória. Verdade é que os transcendentes aparentam sempre questionar a ordem estabelecida; não porque isso seja um fundamento para eles, mas porque entendem que qualquer ordem estabelecida reluta em considerar a propositura de outra ordem, por melhores que sejam os argumentos para a mudança.

    Pior ainda seria dizer que tornaram-se invejosos da influência obtida pelos imanentes. A influência dos transcendentes ainda era forte, mas justamente por se opor a ordem dominante. Os imanentes não reivindicavam interesses pessoais, assim como os transcendentes. Os transcendentes diziam que "se nós somos interesseiros, se vocês não conseguem acreditar mais em nossas reflexões quanto acreditavam no Grande Ano, nós lhes dizemos: política é interesse, por isso a evitamos". Os Imanentes apreciavam mais a influência que suas idéias traziam à política, o que não significava que a filosofia transcendente não tinha sua influência, mas até por causa de os transcendentes não serem muito "disponíveis" a esse mundo político - pois eles consideram isso uma submissão intolerável ao projeto transcendente -, suas influências eram quase inominadas e, às vezes, injustamente atribuídas aos imanentes.

    Os imanentes foram, de fato, vistos com mais simpatia pelos sucessivos governos após 73, mas mesmo os imanentes evitavam se misturar com o governo. Desse modo não se deve de forma alguma confudir movimento partidário com o movimento dos grupos da Época do Imanente - embora esses últimos tenham influenciado fortemente novas ideologias partidárias, assim como inúmeros outros setores da sociedade.

    Mas, especialmente na primeira metade do século XXII, a fama adquirida pelos imanentes rendeu crédito as suas novas idéias e às antigas também, de modo que passaram a ser as idéias imanentes as verdades eternas e inatacáveis, ao menos na visão dos transcendentes. Para aqueles que tenham em mente as utopias imanente e transcendente compreenderão que não havia como ser diferente. A utopia transcendente critica justamente as verdades colocadas como inquestionáveis e, por mais abertos à reflexão que fossem os imanentes, as idéias destes passaram a ser usadas (por uma minoria deles e por muitos externos aos grupos) como pilares absolutos - e eram esses pilares que agora, em grande parte, regiam a distribuição, a organização e o surgimento das entidades.

O Caminho Desconhecido (parte 22)

    Após a libertação das palavras, muitas fluíam sem direção. Havia também as pré-existentes, as que já peregrinavam o mundo e tinham seus fluxos e caminhos muito bem delimitados. Foi necessária a colaboração de muitos engenheiros para se conseguir lidar com a situação que se apresentava.

    Viu-se que não bastava apenas iluminar o mundo com novas verdades - era preciso dar utilidade e pragmatismo para elas. Os engenheiros seriam as pessoas ideais para realizarem esse trabalho. Se as palavras são como as águas, cada uma delas não possuiria valor em si mesma, pois só adquiririam vida quando imersas nas correntezas da existência.

    Se as palavras são como as águas, haveriam rochas infindáveis a lhes regularem o curso, assim como margens, peixes, declives e aclives, cursos à direita e à esquerda e outros mais. Os engenheiros se encarregariam de modificar os obstáculos e de criar outros, caso isso lhes aprouvesse. Formariam novos rios se preciso, e até novos mares.

    Surgiriam outros engenheiros, mais tarde, para contestarem os primeiros e isso seria bem vindo, em nome da multiplicidade das águas e das palavras. Alguns deles teriam intenções desprezíveis, mas outros lhes superariam com suas virtudes. Era imprescindível avançar para novas possibilidades - essas não poderiam permanecer adormecidas.

O Caminho Desconhecido (parte 23)

    Uma meia-descoberta não tem sido algo desmercido. Saber tudo sobre a metade de uma árvore: parece que isso é suficiete. Se isso não for coerente demais, saber tudo sobre a metade de seu tronco ou de seus caules já serve. Se isso for pedir muito, saber metade de uma de suas flores ou de seu fruto. Por fim, pode-se simplesmente saber metade de sua semente, ou ao menos um quarto, ou um quinto dela.

    Se todos sabem um pouquinho disso tudo, pode-se juntar isso, pode- se formar um montão. Chega-se portanto a algum lugar. Mas no meio do caminho algo se perde: perde-se a árvore. A árvore é reconstruída por fim, mas, nesse processo, tempo demais acaba por se passar e, por fim, já não se tem mais a mesma árvore. É necessário, portanto, que se volte ao procedimento inicial: um cidadão vai estudar o fruto - uma de suas partes mais precisamente; outro vai estudar uma parte do caule, outro uma do tronco, outro uma da semente e assim, indefinidamente... contruindo-se e reconstruindo-se a árvore.

    Isso era o que acontecia com um grupo de pessoas que dedicava-se, dessa maneira, a apreender o que seria uma árvore. Viviam a estudar cada pedacinho dela, mas cada uma com o seu pedaço; dessa maneira: tão isoladamente.

    Uns passavam e observavam isso e diziam: "que loucura!". E eles respondiam: "é por algo maior". Os que ali passavam invejavam um pouco o conhecimento fragmentário que cada uma daquelas pesssoas, próximas à árvore, tinha. E estas, entretanto, invejavam um pouco aqueles transeuntes que, diferentemente delas, conseguiam ver uma totalidade que, para elas, era impossível de se ver. 

O Caminho Desconhecido (parte 24)

    Assim agiam os sonhos: oxigenando, prudentemente, o vazio de suas existências. "Prudentemente" acabou-se de dizer: é importante frisar. Pois se os sonhos eram desejos é porque desejava-se aquilo que se sonhava. Não se tinha, não se sentia, não se possuía: então se sonhava. Por isso, aqueles que refletiam sobre esse assunto, não eram ávidos em se alegrarem com o fato de que as pessoas sonhavam tanto; seja com o amor, seja com a beleza, seja com a paz e seja com o bem. Isso podia estar a indicar que essas preciosidades muito lhes faltavam e que os sonhos lhes prestavam um conforto necessário.

    Então - pensavam - era possível que tivessem que admitir - se julgassem importante continuarem a pensar sobre o bem, sobre o amor, sobre a paz e sobre tantas outras coisas mais - que era imprescindível alguma forma de desejo e de sonho  de algo que não lhes fizessem falta. Talvez não se tratasse, nessa hipótese, nem de desejo nem de sonho propriamente, mas de alguma outra coisa que lhes movessem, para essas coisas importantes, sem que, para tanto, tivessem que estar sentindo a ausência delas.

    Caso não houvesse essa outra forma de desejar as coisas, tornar-se-ia quase deprimente pensar ou desejar a paz, por exemplo, pois isso já indicaria, logo de cara, que ela lhes era pouco presente. E aí não teriam receio de que deveriam, indubitavelmente, desejar menos essas coisas boas que julgavam tão necessárias. "Nesse caso, tomara estejamos enganados sobre o que desejamos!" - declaravam.

    Talvez a alternativa - não fácil de ser implementada considerando a sempre incontornável realidade - fosse comemorar a presença, em suas vidas, desses princípios existenciais tidos como fundamentais, a cada momento em que se apresentassem. Mas era imprescindível, raciocinavam, que houvessem motivos plausíveis para isso, que houvessem evidências suficientes ao espírito de que presenciavam fortemente esses princípios, de que presenciavam instantes tais como os de paz, os de sossego interior e os de alegria com os que estão a nossa volta. Essas coisas tinham que lhes serem sinceras e tão vivas quanto a claridade da luz do Sol.

     Talvez a alternativa fosse - arriscavam - que não deixassem de cantar hinos de felicidade nesses momentos únicos, às vezes raros, para que não se esquecessem dessas coisas, tão indispensáveis e tão magníficas que não podiam ser sentidas nos períodos de sua escassez. Tomara - suspeitavam - pudessem festejá-las mais, se não esquecessem de reverenciá-las nos momentos em que tornavam-se mais plenas - não apenas na alma, mas na carne mesmo... ou tomara ainda, quem sabe, nem precisassem mais pensar nelas, de tão enredados que passariam a estar pelas mesmas, caso as libertassem de seus sonhos e as trouxessem para o mundo real.

O Caminho Desconhecido (parte 25)

    Por que desprezarmos tão inconsequentemente o futuro? Sim, é verdade que o futuro não nos pertence e, de modo inequívoco, não nos pertence o futuro além de nosso alcance. Porém é o que nos resta a ser criado, recriado, mantido se quisermos, revertido. É o que se encontra aberto para nós, é o que temos de mais plano e branco, como a folha de um papel. Cabe-nos preenchê-lo, definir suas bordas, prevê-lo ou simplesmente imaginá-lo.

    Não nos enganemos sobre os futuros que nos são delineados. São válidos, são possíveis, mas não certos. Nesse ponto vale que lembremos que o futuro não nos pertence. Façamos que a nós ele pertença.

    Não nos confortemos com as ficções sobre o nosso devir, inclusive com todas essas que são espelhos de poderes inimaginados e de saberes estrelares. Não é que necessariamente sejam falsos: é que não resumem todas as nossas questões.

    Nem toda ficção é científica. Que achemos, quem sabe, alguma humanidade que resista às sucessivas eras e guarde, no seio deste planeta, um pedacinho da eternidade - ou algo próximo disso. Quem sabe hajam textos atemporais. Alguns, bem o sabemos, fazem por merecer essa titulação.

    Isso não significa reverência incondicional ao passado, pelo contrário. Se o passado se faz presente, seja bem vindo. Que não venha ele ditar os nossos percursos, que venha comungar conosco, em nosso tempo, à sua maneira, mas deixando-nos livre para escolher.

    Se o dia de nossa aurora ainda nos parece possível, se acreditamos nele, se não nos entregamos aos sonhos - ao mesmo tempo em que somos guiados, por eles, a esse dia dourado -, se ainda resistimos a perecer, se resistimos a desistir, se bradamos hinos de esperança, no vão esforço de desafiar os céus e os infernos que nos submetem ao jugo de um destino incontornável... Talvez seja por isso: o futuro nos é incerto. 

O Caminho Desconhecido (parte 26)

    Estamos sonhando ou acordados? Chega a ser infantil perguntar isso. Mas por que essa pergunta não nos é totalmente absurda? Talvez porque suspeitamos que queremos o que, no fundo no fundo, não é o que queremos. Desejamos coisas que ou estão além de nosso alcance ou das quais nem precisamos de verdade. Mas, de alguma forma, elas nos parecem tão necessárias.

    Talvez também o motivo de não nos sentirmos tão despertos esteja no fato de imaginarmos coisas várias que, por demais, nos intrigam, no que diz respeito à sua possibilidade ou à sua realidade. Chegamos a duvidar que tais coisas existam da maneira com as vemos, seja porque encontram-se muito distantes de nós, seja porque as vemos de uma forma muito limitada e superficial.

    Imaginamos, sonhamos e desejamos e nos questionamos: isso é possível? Desejar as coisas parece ser um processo constante; um processo que nos faz crer - e talvez nossa crença esteja correta - que nossos sonhos façam parte de nossa natureza - resta saber em que medida. Resta saber o quanto de sonhos em excesso nos são produzidos, o quanto somos levados por eles, talvez por culpa de mentes ardilosas. Há muito o que questionar sobre esse assunto, há muito a se hipotetizar sobre isso. Mais tarde será o momento de verificarmos se nossas indagações eram coerentes. Por ora, sejamos levianos.  O grande livro sobre os sonhos ainda não foi escrito.

    Até os animais sentem necessidade de ração, mas tal alimento não advém da natureza, foi produto dos homens. Eles não precisam desse tipo de alimento, mas é bem provável que sonhem com ele. Tal alimento é uma produção, é obra da técnica, da engenhosidade e da inteligência do homem que fez um alimento tão simples mas tão completo para esses animais que dele consomem: não é encontrado fora desse estado artificial. Talvez hajam sonhos artificias, como os dos animais que sonham suas rações. Talvez possamos identificar tais sonhos nos homens: quem sabe. Talvez isso pareça até uma tarefa simples ou sem propósito. Mas não para aqueles interessados em entender como tais mecanismos, produtores de desejos, operam.

    Se até os animais se enganam assim e julgam necessitar de algo que não é o que realmente necessitariam... Quão dirá os homens!

    Alguém poderia argumentar que a técnica humana faz parte de sua natureza. Certamente, concordamos com isso, mas não faz parte da técnica dos animais. Eles, coitados, não a engedraram: apenas sofrem suas consequências. E, a partir dessa reflexão, talvez tenhamos chegado a um insight mais interessante: não são todos os homens que são produtores da técnica. Sendo assim, alguns estão aí para produzi-la; outros, para sentirem seus efeitos.

O Caminho Desconhecido (parte 27)

    O que é isso que de repente nos imobiliza, nos deixa sem vontade de as coisas fazer? Diante de tanta coisa a realizar, de tantos textos para ler, diante de tantos filmes para assistir, diante de tantos projetos a se desenvolver, o que é isso? Isso que nos paralisa, isso que nos cansa e nos deixa sem fôlego? Por que nos entregar a isso, mas também por que nos sentimos tão comprazidos a isso nos entregarmos? Não é tempo para render-nos, não ainda.

    Será que o que nos abala tanto é saber que tem muitas coisas acima de nós, acima de nossos desejos e de nossa energia, a nos delinear e a nos obstaculizar? Não parece que seja só isso. Para onde iremos? Ora essa é uma pergunta perspicaz, não tenhamos dúvida. É uma questão antiga e, ao mesmo tempo, tão nova! Para onde iremos?

    Seguiremos o rumo que viemos seguindo, seguiremos nova rota? É justo, é devido, é certo, é moral, é imprescindível, é inteligente? Diga-nos qual o caminho que devemos seguir. Diga, e nós te seguiremos! Diga-nos siga comigo e nós te acompanharemos no caminho da verdade. Onde está? Não a sentimos. Nunca a sentimos.

    Sim muitos nos esforçamos. Sim muito a procuramos. Ainda a tememos, talvez mais porque as outras que se puseram em seu lugar foram todas temíveis. Mas ela virá, cremos nisso e, de todo modo, não temos outra alternativa que não esperá-la.

O Caminho Desconhecido (parte 28)

    Por certo que é uma estrada diferente das demais. Por lá, poucos andam, poucos sabem ou notam sua existência, poucos a desbravam e a percorrem. Alguns desconfiam de sua presença, chegam a encontrá-la, mas, porque não lhe atribuem a devida importância, dão nela apenas alguns passos. Assim é o Caminho Desconhecido e, como o nome indica, poucos o conhecem. Se é dessa maneira descrita que ele é, isso se deve ao fato de que as pessoas tenham se esquecido dele, tenham desistido de procurá-lo.

    É notório que o caminho que leva ao Grande Livro da Vida é desconhecido. Mas este é também escondido. Nem todo caminho desconhecido é escondido, pois alguns são apenas ignorados. Sim, existem vários caminhos desconhecidos, e é bem possível que haja o maior dentre eles. Isso justificaria a hipótese, a muito tempo inventada, de que eles formariam uma grande árvore, como se fossem inúmeros galhos que se ramificam e haveria um dentre eles que seria seu principal - um tronco central que daria origem a todos os demais caminhos misteriosos, enigmáticos e místicos (ou que simplesmente seria o maior de todos eles). São, com certeza, veredas, estradas, caminhos e sendas valiosíssimos. Percorrê-los, encontrá-los e persegui-los nunca é algo simplório, aos olhos da eternidade.

    Não deve ser tão difícil encontrar alguns deles. Uns levam a outros, de modo que perseguir algum deles sempre nos leva a algum lugar especial, desde que não se perca totalmente em sua jornada. Muitos tornam-se invisíveis por nossa falta de atenção e pela nossa correria. Atentos que somos a tantas coisas, e com tantas coisas a nos prender a atenção, fica quase impossível notá-los. E às vezes estão bem na nossa cara.

O Caminho Desconhecido (parte 29)

    A palavra Cano bem que poderia ser escrita como "câno", pois um desavisado, um estrangeiro por exemplo, não poderia saber que a vogal A, que vem após a consoante C, não tem o seu som natural de A. O som natural da vogal A, bem o sabemos, é aquele que tem som aberto, como se a vogal A estivesse com acento agudo, como se estivesse escrita da forma seguinte: á. Assim ocorre também com todas as demais vogais - todas elas têm como som natural o som aberto.

    Essas considerações acima, talvez sem propósito ao leitor, parecem interessantes. Embora seja vívido aos nossos sentidos tais apontamentos, embora pareça evidente que essas vogais possuem o "som agudo" como padrão, isso não parece ser levado em conta nas regras de acentuação. Acho que isso deve ser denunciado. Parece um contrassenso que pronunciemos isoladamente tais vogas, da forma aberta, mas que nas palavras elas sejam encontradas com som fechado. É evidente que não se está defendendo que passemos a pronunciar a palavra Cano com som aberto. Mas por que não colocar um acento circunflexo nela? Será que é só a aqueles, que ficam parando para pensar em coisas aparentemente sem importância, que incomoda esse ocultamento da tonicidade fechada, sub-repticiamente elidida na grafia da palavra Cano? Bem... pois então que seja! Nós os desbravadores de lugares conhecidos, os escavadores de altitudes e os alpinistas de abismos não nos desfazeremos de nossa missão.

    Feito isso, colocados os acentos onde por justiça devam ser colocados, passemos aos sons negligenciados. Continuemos no Cano para demonstrar as veredas que queremos implementar. Por que não efetuamos uma pequena alteração na pronúncia de Cano? Testemos isso, vejamos no que dará. Coloquemos uma consoante N ao lado desta outra consoante N já presente na palavra Cano. Qual a consequência disso? Ora, sobre o ponto de vista sonoro há sim uma pequena alteração, singela e sutil, mas ela existe. Temos a vogal A agora arrastada pela sonoridade da consoante N que acrescentamos em excesso à Cano. Temos "canno". Uma construção não presente, anteriormente, em nossa língua, quase uma palavra estrangeira, mas que na verdade, seria plenamente portuguesa, dada a sonoridade permitida pelas regras de nossa língua que, por sinal, salvo engano, não permite a construção linguística que acabamos de implementar - não permite que a consoante N seja seguida de outra idêntica (não permite ou não existe palavra construída dessa maneira).

    Saindo de Cano agora, mas permanecendo por esse mesmo caminho de acrescentar sonoridade e letras onde não existem ou onde deveriam existir. Uma palavra que incomoda aos mais atentos deve ser a palavra Muito. Qual é a justificativa para se escrever Muito ao invés de "muinto"? Ou mesmo por que não se pode colocar um til na vogal I? Que preconceito com o pobre I [ ! ], já tão prejudicado e tão substituído em palavras como Futibol - quero dizer, Futebol. Por que só o A e o O têm direito a ter til? Por quê o I não pode receber o acento circunflexo? Na palavra Muito esses acentos seriam "muinto" bem vindos, caso a sugestão de colocar N não fosse levada a cabo.

    E, para terminar, uma última denúncia. Quantas letras possuímos, quantas palavras temos à nossa disposição, mas quãos poucos acentos! Não só os indicadores de tonicidade são poucos, como também resumimos nossas frases em afirmações, exclamações, interrogações e algumas poucas reticências e dois-pontos. Mas vocês conseguem perceber como são diferentes as exclamações? Como um grito de socorro é diverso de uma afirmação um pouquinho mais exaltada, mas ambas recebem a mesma exclamação? E o meio das frases?... Não caberiam exclamações e interrogações no meio das frases [ ? ], se assim a entonação delas exige? Não necessitaria que um "vá em paz" merecesse algo mais que um ponto final e um pouco menos do que um reticência, já que a reticência parece colocar em dúvida esse nosso desejo de que a pessoa permaneça verdadeiramente em paz?

    Todas essas argumentações não são para serem tomadas como reivindicações estritas, mas como uma descontração séria. Pois elas nos balançam e revelam as limitações a que estamos sujeitos ao expressarmos o que queremos. Mas não há nada de tão incomum no que acaba de se afirmar, visto que volta e meia nos sentimos desafiados a contorcer e retorcer essa nossa língua materna, levando-a para além das fronteiras por ela mesma delimitadas. Alcançando o além da língua, a dignificamos, pois ela que nos permite esse além, ela que nos impulsiona a superá-la com nossas idéias e com nossa capacidade de modifica-la. Ela não é viva porque é inerte, mas porque é capaz de reorganizar-se.

O Caminho Desconhecido (parte 30)

    Somos aonde não estamos, estamos aonde não somos. Mas apesar da desconfiança nos levar a permanecer alertas e vigilantes, apesar de sermos tão facilmente empurrados para mentiras que nos cercam, apesar de sermos tão ingenuamente lubridiados com as promessas cotidianas... Apesar disso tudo, temos que concordar: deve haver um lado positivo nos nossos devaneios.

    Quanto às mentiras, assim as caracterizamos não só porque essencialmente provem-se falsas. Embora pudessem desta forma serem desqualificadas, o que as abalam seriamente são os seus argumentos, estes é que são por demais frágeis, contraditórios e imprecisos. Ou seja, o problema não se identifica pela proposição final, mas pela linha de raciocínio que a sustenta, pelo falatório que a justifica. Se questionamos tais argumentos logo tornam-se parciais, provisórios e incompletos, logo revelam sua invalidade, não porque tivessem que ser mais verdadeiros ou completos, mas porque arrogam-se uma completude inverossímil. Alguns que defendem tais argumentos logo recorrem a verdades inquestionáveis quando são por muito tempo arguidos, quando não partem para a violência. Isso não significa que essa violência seja feita de forma escancarada, que não possa se valer de artifícios ardilosos.

    Mas voltando... O lado positivo dessa coisa toda, os benefícios do delírio... Sim há, eis que o homem tem o direito de enlouquecer, de partir para um mundo de imaginação e fantasia onde nenhuma dor e pesar existencial irão procura-lo. É de se duvidar que alguém em sã consciência escolha isso, mas fica sendo esse um caminho a se escolher. Porém parece que o difícil é que um homem aceite ser enganado, difícil é que admita ser levado por outrem para esse mundo de sonhos e lá seja aprisionado. Difícil é separar, evidentemente, a responsabilidade do sujeito e a dos outros, tanto em acabar por parar nesse mundo de Morfeu, quanto em produzir armadilhas para em tal mundo cair.

    Se não é um direito do homem abandonar-se em um mundo de fantasias, não é direito de ninguém trancafiá-lo lá. Qual o argumento para isso? Ora, vejam os loucos... Nem eles admitem serem enganados e perseguidos.

O Caminho Desconhecido (parte 31)

    A mudança está no limiar. Mas... o que é o limiar? Bem... O limiar não é exatamente o centro, pode até ser localizado lá, mas não é lá que ele parece conter-se. Ele agita-se para a direita, agita-se para a esquerda. O limiar é, dependendo da circunstância, a direita da esquerda e a esquerda da direita. Ele é inquieto e não se apazigua em um dos lados. Se assim acontece, isto é, se ele se acalma em alguma extremidade, já não é mais o limiar - ao menos enquanto assim manter-se.

    Portanto o limiar acontece, ele faz acontecer. Ele torna-se; mais do que se define. Ele é processo; mais do que produto acabado. Acima está o que o cobre e o coaduna e, igualmente, o que está abaixo dele também o margeia. Mas ele é a grande margem, a margem entre as margens. Ele não está à margem; está além dela.

    Ele pode percorrer a dupla margem, a superior e a inferior. Pode percorrer o caminho entre elas e todo o resto. A bondade e a maldade o perpassam, mas não prevalecem nele porque nele não pode haver domínio absoluto - senão, não é de limiar que se trata. A totalidade não pode reinar dentro dele: ela o visita, mas nele não pode instalar-se.

    Isso não significa, necessariamente, que o limiar é interesseiro e que ele se aproveita das posições existentes apenas movido por sua conveniência e por sua astúcia . Defini-lo desta forma já seria contê-lo em alguma rotulação mais perene, o que é sempre duvidoso em se tratando dessa região fronteiriça.

    Até atribuir-lhe o axioma da inconstância já seria errôneo, pois é possível imaginar momentos em que ele esteja em conflito com uma das extremidades, de modo que tenha que manter-se em certo posicionamento - e aí, por esse longo período, seria possível vê-lo assumir uma forma mais delineada. Já atribuir-lhe esse caráter conflituoso também poderia ser errôneo porque existem momentos em que a mobilidade produzida pelo confronto das extremidades é intensa e a fronteira entre elas torna-se imperceptível. Nesses casos, o limiar, de tão inconstante, se apaga e nem precisa pronunciar-se: a própria indefinição por parte das extremidades se encarrega de realizar o seu trabalho.

    Mas nos períodos de completude das extremidades, nos períodos em que elas estão plenamente e solidamente determinadas, o limiar fica, paradoxalmente, mais corporificado. Ele pode parecer uma camada fina e frágil a separar esses opostos - especialmente aos olhos do que só percebem os extremos. Mas ele é a ameaça para ambos. Talvez porque ele seja a única possibilidade de confluência das diferentes essências. Ele é a possibilidade de assimilação, de combinação, de trazer os que estão lá para cá e vice-versa. Por não ser de nenhum dos lados, pode ser ambos ou nenhum dos dois, pode converter alguns que não lhe pertencem a si e, desse modo, reduzir a influência dos céus e dos infernos.

    Se os deuses não vão às profundezas e os demônios não sobem às alturas, a terra parece ser um lugar de comunhão para todos - e é isso que todos eles temem. O limiar não é o centro, ele está entre. Mas as bordas que o contém não lhe pertencem, são exteriores a ele, não são sua essência. Ou, melhor do que isso, ele é a grande borda capaz de congregar com todas as bordas. Por isso, ainda que não seja vasto, seu campo de atuação é relativamente ilimitado.

O Caminho Desconhecido (parte 32)

    Houve quem rebaixasse os integrantes dos grupos imanentes e transcendentes e os denegrissem chamando-os de ocultistas, bruxos e charlatões. Bem, isso eram ofensas aos olhos dos acusadores, pois aqueles pensadores consideravam isso um elogio e sabiam que a acusação tinha procedência. A divergência entre eles e esses místicos residia no fato de que os primeiros não acreditavam em poderes ocultos, não se enveredavam por essas crenças. Mas eles também estavam interessados nesses saberes que ninguém se interessa desde que isso pudesse ser utilizado, intelectualmente, em favor das idéias, do pensamento, da razão; desde que esses saberes pudessem libertar as mentes, lhes fornecer novos caminhos, lhes livrar da opressão das verdades sutis, frequentes e tidas como inequívocas. Lembremos que eles viviam sob o império, sobretudo, das imagens e dos sons e tudo que lhes auxiliasse a refletir sobre esses tempos em que viviam lhes seria de bom proveito. Tudo que pudesse fornecer novos subsídios e novas possibilidades ao intelecto era visto como potencialmente útil.

    Outro tema que trazia à baila uma série de discussões era o da transcendência. Essa palavra gerava uma séria de complicações teóricas aos próprios pensadores. Vejam por exemplo os grupos de transcendentes. Sob um certo ponto de vista, incrivelmente, não se poderia de forma nenhuma afirmar que acreditavam em alguma transcendência. Apesar de chamados de transcendentes, estes não apelavam, de forma alguma, a um poder sobrenatural, a um bem soberano, a uma causa fundamental. O mesmo, quase, poder-se-ia dizer dos imanentes, exceto pela crença que possuiam nas essências, o que poderia indicar que procuravam fundamentos, elementos e causas básicas, isto é, que acreditavam em entidades puras e primárias. Mas a crença nas essências apenas parece confirmar o quão esses pensadores estavam com "os pés nos chão", presos à terra firme, buscando nas coisas mesmas, ou melhor, nas coisas como as percebemos (nas entidades, portanto) as explicações que investigavam.

    Mas os transcendentes não acreditavam em essências e é sob esse flanco que poderiam ser atacados e desqualificados quanto a arrogarem-se não almejarem nenhuma transcendência. Isso porque se não há essência existiria uma potencialidade transcedental em todas as coisas e em todas às entidades e existiria uma afetação transcedental entre elas, já que o valor delas seria relativo e dependente das demais. Os transcendentes rebatiam essa crítica apontando que por mais que pensassem realmente assim, não atribuíam essa relatividade das coisas e das entidades a algum poder superior e externo ao mundo físico e material. Por isso julgavam leviana a afirmação de que defendiam qualquer transcendência. Diziam inclusive que dever-se-ia acusar os imanentes de transcendência, já que acreditavam nessa tal de essência que mais parecia - aos transcendentes - uma criação fantasiosa do que uma coisa real que se poderia constatar nas entidades.
    Mas se se fosse analisar os textos transcendentes e imanentes se perceberia que ali havia muita transcendência de fato, ao contrário do que gostavam de admitir. Pois os textos deles pareciam impregnados de metafísica, de fantasia e criatividade. E que não se pense que estamos por desqualificá-los aqui. Como eles mesmo defendiam, valiam-se de suas parábolas e metáforas como forma de dar forma aquilo que ainda não conseguia encontrar forma no mundo em que viviam. Seja por que eram coisas poucos notadas, seja por que eram sentimentos, sensações e intuições muito vívidas, mas complicadas de serem descritas plenamente e coerentemente em um pensamento que fosse muito lógico, estruturado e descritivo. Eram intuições que talvez não se apresentavam plenamente na realidade como as coisas que nos rodeiam.

    Não à toa criaram o conceito de entidades (que inclusive se poderia acusar de ser transcedental). Estas eram difíceis de serem descritas porque estavam emaranhadas em meio a uma realidade sempre muito maior que a amplitude dos sistemas e dos métodos. E os próprios fundamentos do saber que esses intelectuais defendiam estavam firmados nesse solo da dúvida, da desconfiança, que os fazia sempre suspeitar de qualquer proposição, discurso, espetáculo, melodia que se apresentasse como uma verdade inabalável. 

O Caminho Desconhecido (parte 33)

    Não é fácil separar aquilo que revive daquilo que aprisiona, não é uma atividade inequívoca se dedicar a julgar uma coisa dessas. Pois qual de nós não gostaria de ouvir aquela palavra radiante, aquele som divino, aquela melodia magnífica que nos restabeleceria plenamente e que nos faria nos sentir tão completos? Qual de nós não espera ser, de repente, iluminado por certa verdade arrebatadora, por certo rara de ser sentida, mas tão insistentemente desejada? Não é de se estranhar que tantas substitutas se candidatem a suprir essa busca irreparável do corpo e da alma. Então, sendo assim, como amaldiçoar previamente todas essas sensações que nos chegam e que calcificam, ao menos um pouco, o buraco permanentemente aberto em nosso peito pelo nosso penar existencial?

    Aquela palavra... A sim, quem de nós não a ouviu? Aquela fala que inflama a alma com um raio que cai sobre a floresta e a queima, reaviva e ressuscita de sua morbidade cotidiana. Mas por certo que não é um palavra constante, mas é a palavra que precisava naqueles momentos exatos, naquela realidade precisa que me contornava e me delimitava. Aquela palavra, mas também aquela música e aquela imagem esplendorosa. Todas elas já não me dizem mais nada agora. Talvez digam a algo a outrem, talvez digam algo a mim mesmo amanhã. Mas hoje... não mais.

    Aquela palavra é como a chuva que começa de repente; põe-se a acalmar-me e a relaxar-me. Às vezes é o trovão a agitar-me e devolver-me o grito de guerra perdido e mortificado. Às vezes é o clarão do relâmpago a me devolver a visibilidade das coisas, a me apontar as coisas não percebidas. Aquela palavra é aguardada como o sono que demora a se instalar num corpo aflito por suas sensações e por seus desejos. Aquela palavra trará a nossa juventude de volta, ela devolverá os sonhos perdidos e não mais alcançáveis, ela nos transportará para o passado, nos fará senhores do presentes e nos dará a certeza do melhor para o futuro.

    Sim, aquela palavra... E quantas outras se põem em seu lugar. É justo rejeitá-las e desmerecê-las apenas por que não conseguem atender a essas exigências tão inalcançáveis que esperamos daquela que é a palavra das palavras? Não nos resta escolha se não aceitarmos essas que são menos perfeitas para nossos objetivos. Cabe-nos, então, rejeitarmos as menos adequadas.
    Existirá, por certo, entre nós, não a mais perfeita das palavras - a menos que ela tenha sido, finalmente, encontrada. Mas existirão, não temos por que duvidar disso, palavras esplendorosas, palavras para palavras, palavras que criam novas palavras, palavras que organizam e reorganizam as coisas, que dão vida a elas, que as reanimam. O mesmo vale para os sons, para as imagens, para todas as outras entidades.

    Que não sejam breves e perecíveis é o que almejamos. Mas sabemos que poucas resistem aos tempos e aos homens. Que sejam gloriosas e nos transportem para a eternidade. Que elas nos tornem gloriosos.

O Caminho Desconhecido (parte 34)

(o texto abaixo é anterior a 73. Foi escrito pelos grupos - da Época - do Imanente)

    A repetição do Mesmo produz a sensação de que ele é inevitável. Por isso amamos tanto o acaso. Ele é a nossa válvula de escape. Ao mesmo tempo em que nos projeta para o futuro e nos promete o novo, o acaso cicatriza essa ferida que tornou-se para nós essa recepção constante e canalizada de percepções modeladas e modelares. Ele é a esperança do diferente, em nosso caminhar, do que foi prefixado pelo destino. Mas, de tão desejado, passou ele também a se repetir, a se tornar frequente; passou ele também a ser o esperado nos próximos dias, nas próximas cenas, nos próximos capítulos. É bem provável que cada época guarde para si, bem definido, esse impossível de se superar. Para nós o impossível é superar essa repetição tão propagadora, tão exaustiva, tão incansável. E, ao mesmo tempo, nos perguntamos em estado de dúvida: deveria ser diferente?

    Dúvida que denuncia, implicitamente, nosso desejo de mudança e nosso desejo de que algo não mude. Mas, em todo caso, se deve haver mudança, ela deve ocorrer em que nível? Ao nível da realidade ou ao nível do que se propaga sobre ela? Se se tratar mais de mudança na realidade, devemos ter cautela e cuidado para não culpabilizar erroneamente esses emissores de entidades. Se por um lado eles parecem gerar um estreitamento sobre o que se sente e percebe, por outro parecem representar a possibilidade de uma distorção - potencialmente boa e má - desse real. Distorção necessária para se poder vislumbrar alternativas e searas não existentes, mas preocupantes por desviar nossa atenção de algumas coisas e a direcionar para outras.

    E por outro lado nos perguntamos: mas o que, em meio a essa - talvez aparente - variedade toda, tanto se repete? Por que a necessidade de questionar essa suposta repetição? Um dilema responder isso, certamente. Não nos faltam razões individuais, morais e políticas... Mas talvez a justificativa mais plausível, e que seria melhor entendida, é a seguinte: essas coisas nos afetam o tempo todo, nos contornam, nos cercam, se apresentam como múltiplas e infinitas, mas limitam-se num tempo e num espaço que são exclusivamente repartidos pelos aparelhos transmissores que as reproduzem.

    O importante é notar que outras entidades (sons, imagens, palavras, etc) não podem ocupar o lugar dessas (obviamente, já que "dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço") e que esses aparelhos transmissores não são muitos ou, ao menos, não são muitos os que detém imenso poder de transmissão dessas entidades. Desse modo as entidades ganham uma importância que advém não só por elas mesmas, não só pelo que elas possam deter de especial, mas pela dimensão que ganham ao serem expostas, positiva ou negativamente, por esses poderosos emissores. E não se trata de necessariamente culpabilizá-los - trata-se de constar esse processo como um fato.

    O tempo e o espaço limitam as entidades, assim como a nós, não restando, inevitavelmente tempo para outras - nem espaço. Portanto seria até aceitável entender que outras entidades não poderiam ocupar o lugar das que se apresentam. Mas sabendo que os emissores não são tantos, que as entidades ganham brilho ou são demonizadas, especialmente por causa da abrangência que esses emissores têm na propagação das entidades, sabendo disso, surgem questões. Uma delas já foi exposta, que é a dúvida que fica sobre a origem do valor das entidades, se ele se deve mais por mérito ou demérito delas ou por causa do que lhes é atribuído negativa ou positivamente pelos emissores. Mas, outra grande questão, muitas vezes aventada por aí, é se existe ou não intencionalidade nesse processo, isto é, se existe manipulação e se essa manipulação é refletida, calculada, articulada com outras instâncias (inclusive as de poder - estatal, privado ou qualquer outro poder).

    O problema central - ousadamente propomos - parece ser as características que acabam por qualificar essas entidades transmitidas: a distância e a abrangência delas. Características mais dos grandes emissores que as reproduzem, do que delas em si. Se cabe culpabilizá-los por isso, tal julgamento parece precoce. Todavia isso não diminui nossa intuição de que são essas coisas todas (esse alcance imenso das entidades, essa emissão feita de lugares longínquos ou estranhos a nós, e essa canalização e essa seleção inevitáveis do que será transmitido) que contribuem para que fiquemos sempre com um pé atrás em relação às entidades, sempre a suspeitar intenções, a associá-las com a realidade incontornável que nos assola. Se fossem próximos ou familiares os seus lugares de emissão, se sentíssemos que eles realmente nos são confiáveis, se não fossem tão poderosos e inquestionáveis esses emissores (inquestionáveis pela sua constância, pela sua abrangência, pela sua capacidade de formar opinião em massa) talvez não nos causassem tamanha inquietação.

    Mas, por certo que nos indagamos novamente: o problema é a realidade ou o que se propaga sobre ela? É a realidade ou o que se propaga aquém dela, apesar dela, contra ela? Ou o problema é justamente o que se deixa de propagar, por esses emissores, aquém de, apesar de, contra e sobre a realidade?

O Caminho Desconhecido (parte 35)

    Existem conhecimentos, não o conhecimento; linguagens, não a linguagem; visões de mundo, não a visão. Existem formas de se expressar, existem jeitos de falar, existem maneiras de pensar, de organizar as idéias, de entender o mundo. Essa variedade advém da multiplicidade que habita em nós seres humanos; criamos essa diversidade toda a partir de nossas diferenças. Se tivéssemos parado em Adão, se depois não tivesse vindo o Manoel, o Joaquim e o João, é possível que as coisas não fossem como são. É provável que não teria havido o desfecho dado em Babel, que não teria havido a dispersão dos povos, que gregos e troianos não se perceberiam como tais. Mas as coisas tomaram essa forma: se diversificaram.

    Sendo assim, não temos a língua universal ainda perseguida por alguns. Sendo assim, não nos reduzimos, ainda, às ciências puras, não nos deixamos limitar a isso. Sendo assim, as religiões se difundiram, mas se dividiram, as civilizações dominaram o globo, mas se organizam cada vez por formas mais complexas e há a participação cada vez maior de grupos cada vez menores.

    A individualidade, assim entendida, é coletiva. É a individualidade de grupos perante outros. Ela denuncia a nossa própria individualidade que resiste ao mundo a nossa volta. Ela denuncia, nesses grupos, a nossa suscetibilidade ao coletivo que nos convida à comunhão de pensamentos.

    Não se trata de conflito entre o universal e o individual - não é isso que estamos expondo aqui. Expomos essa legitimidade que temos de pensar diferente, de descobrir, se possível, a nossa própria língua individual, a nossa própria forma de conhecimento, a nossa visão de mundo, o nosso jeito próprio de expressar, falar e pensar. Haverá isso? Busquemos. Inevitavelmente seremos impregnados pelo mundo a nossa volta que também faz parte de nós. Algumas coisas advindas dele nós aceitaremos outras nós rejeitaremos. Mas o importante é marcharmos para essa nossa utopia particular. Redescobrir nossa visão, redescobrir nossa maneira individual de pensar, de expressar, de escrever.

    Seremos os novos Adãos. O Adão Manoel, o Adão Joaquim e o Adão João. Redescobriremos essa magnífica experiência de sermos únicos. Nossos livros serão de fato nossos e de mais ninguém. Essa utópica utopia será o nosso destino, ela será nossa individuação. Antes do fim, antes que acabemos entre os nossos, nos faremos incomparáveis. Nossa escrita será irreconhecível e ainda assim bela. Nossas palavras serão incopiáveis e ainda assim plenas de sentido. Nosso dizer e nosso inteligir não serão os mais perfeitos, mas não se encontrará na face da Terra dito e sabedoria que se aproxime da nossa.

O Caminho Desconhecido (parte 36)

    O problema da transcendência não é fácil de ser resolvido. Apelando para o que não se vê, para o que não se pode delinear totalmente, para o que só se pode referir parcialmente e por analogias e heurísticas, ficamos a mercê da dúvida sobre a veracidade disso que afirmamos como real e que não pode fornecer provas suficientes à razão sobre sua realidade.

    Mas, como aprendemos, em última análise tudo nos é duvidoso - logicamente falando -, tudo está circunscrito a limitação de nossos sentidos perante à uma realidade sempre maior do que nossa capacidade de apreendê-la, eis que limitados estamos por nossas faculdades intelectivas, ao tempo que são elas que nos permitem dar sentido ao mundo que nos rodeia. Enfim... no limite, tudo é transcedental.

    Mas se esquecemos o problema da verdade, e tomamos a realidade como circunscrita ao nosso sistemas de proposições, criamos um mundo novo, um mundo que cabe na palma de nossas mãos. As ciências fizeram isso, mas tendo como esperança final recuperar a verdade. No fim, acreditavam poder achá-la do outro lado do túnel. E, de fato, consideram encontrá-la sempre que suas pesquisas proporcionam alguma resposta útil e prática.

    Nós também criaremos um sistema de proposições que julgaremos adequados aos nossos objetivos, nós também desenvolveremos métodos que possibilitem algum apaziguamento a nosso espírito, nos dedicaremos a percorrer caminhos que só por nós poderão ser perseguidos. Não fundaremos nenhuma ciência, mas restabeleceremos a nossa verdade.

    Tomaremos as verdades que nos cercam se elas nos convierem, se aprazerem nossas intenções. Nosso propósito é fundar propósitos, é delinear, ainda que não saibamos que domínio; é proclamar, ainda que não saibamos que proposições; é registrar aquilo que por bem desejemos que não se esvaneça depois de nós.

    Se acharmos por bem, não abandonaremos totalmente os pressupostos que julguemos indiscutíveis. Se acharmos por bem, não ignoraremos grosseiramente o problema da transcendência. Manter-nos-emos amantes do verdadeiro, se esse caminho quisermos trilharmos. Mas ao menos não nos entregaremos às proposições, aos sistemas, aos métodos pré-fixados. Ao menos não nos curvaremos a verdades maiores que nós, seja porque algumas não nos dizem respeito, seja porque muitas já possuem seus fiéis guardiões (e não precisam de iniciantes), seja porque em nada nos acrescentarão a essa altura de nossas vidas - ou o prêmio por elas oferecido não nos compensará ou não compensará às mesmas.

    Tomaremos a primeira das lições como pilar central, aquela a muito tempo proferida, esquecida e pouco valorizada. Para que nunca nos deixemos levar pelas verdades eternas, nós nos lembraremos dela que consideramos a questão das questões, mas também a proposição das proposições. E ela se resume à seguinte interrogação: "o que atinge o ser, como seria ignorância?".

    Eis aí, nessa pergunta socrática, a base de um saber possível e que alguns de nós defendem. Do transcedental (tudo em última análise) importa o que nos afeta, o que nos abala, o que nos detroça, o que nos eleva, isso que vem, revém, advém e não nos deixa sossegar - mesmo que a isso tentemos ignorar.

O Caminho Desconhecido (parte 37)

    Nosso encantamento pelo brilho do Sol só não é maior do que a desilusão que sentimos após o anoitecer. Assim, o Sol não deixa de manter-se glorioso e pleno de luz e calor, mas ele já nada nos diz respeito no avançar das horas, suas luzes já não mais nos tocam, seu calor já não sentimos, seu esplendor já não nos eleva mais. No avançar das horas, o frio, a solidão e a escuridão nos tomam e, se o amanhã é certeza, isso não ameniza a angústia deste vazio que se instala, desta agonia sem fim, desta desesperança tamanha deixada pela falta de sua energia e de sua força.

    O Sol não é idêntico a nós, mas o sentimos como nossa força. E por essa nossa força não ser nossa, é nossa fraqueza, eis que dependentes estamos daquilo que nos fortalece. Ainda assim nada há como o brilho dele, nada há como o seu fulgor e seu poder.

    A noite paradoxalmente nos ampara pois é nosso único refúgio deixados que fomos pela luminosidade solar. Mas ela depende de nós - ou depende da ausência da luz celeste. Não fosse o abandono do dia, ela, a noite, não reinaria assim: tão inevitável.

    É possível que, nas surdinas dos tempos, as luzes e as trevas tenham combinado nunca se meterem entre si, nunca ultrapassarem os limites uma da outra. Foi aí que algo como o homem teve a oportunidade de surgir. Assim o dia combinou com a noite um reinado para ambas, deixando o homem a mercê das mesmas. Este nunca saberia dos segredos tramados no início dos tempos, pois o homem não estava lá para ver isso. Para ele, algo como uma culpa o teria lançado para longe do dia, algo como a maldade da noite o teria corrompido e o afastado da claridade e da transparência das coisas.

    Restou ao homem esse exílio eterno, pois a claridade lhe é negada plenamente, assim como deve afastar-se da escuridão, pois caso contrário por ela será tomado. E, nesse movimento alienado, o pobre homem é arrancado, todos os dias, de sua própria Terra, de seu mundo ao redor, das coisas que lhe passam e perpassam, das pessoas que o cercam. Ele anda sobre a Terra, mas nela ele não vive; está sobre ela, mas nela ele não pode ser isso que ele é: homem. Em ter de ser o que lhe é determinado pelas extremidades, o homem é desterrado, banido de si, banido de seu ser terrestre.

    Mas o princípio dos tempos já vai longe, resta-nos então apenas essas suposições sobre os ajustes silenciosos que deram origem a essas coisas misteriosas. Coisas como essa mortalidade que não tem fim - que é a nossa mortalidade - e como essa divisão tão binária, tão exata, tão bem milimetricamente definidade, que é a divisão do dia e da noite, que se assemelha a divisão entre céus e infernos, e a que existe entre os sexos e outras mais.

    A natureza arroga-se binária. Mas isso não significa que não haja interstício. Pode ser que o interstício seja por si mesmo idêntico ao tão aclamado limiar. De todo modo, nos parece que todo limiar é uma forma de interstício.

 Caminho Desconhecido (parte 38)

    O limiar poderia ser visto como o ponto de encontro por excelência, não fosse o caráter conflituoso geralmente atribuído a ele. Em primeiro lugar, tal conflito, acreditamos, não nos parece indubitável e perene, eis que - já expomos alhures - o limiar pode se impregnar de uma das extremidades ou de ambas, trazendo-as para si ou simplesmente posicionando-se com alguma delas. Indubitável, entretanto, parece ser sua inquietude, pois embora sua fome por mudança possa permanecer oculta, está sempre desejosa de se revelar.

    Em segundo lugar são as extremidades que muitas vezes estão em disputa e, quando se apaziguam, assim o fazem mais por causa da certeza de que não se misturarão com a outra extremidade do que pelo nascimento de qualquer simpatia entre elas. Assim sendo, é possível hipotetizar que o limiar poderia esvanecer não só pelo conflito feroz entre as extremidades, que inclusive denuncia a indeterminação de cada uma delas, como também poderia desaparecer se as extremidades se diluíssem entre si - e nesse caso não haveria mais nem extremidades, nem limiar.

    Por isso tudo é que o limiar é sim o ponto de encontro inoxidável, justamente - como já sabemos - porque pode trazer os que estão nas extremidades para si. Não há contato direto entre os de cima e os de baixo, entre os da direita e os da esquerda, entre os céus e os infernos, entre o bem e o mal, entre a paz e a guerra, entre o amor e o ódio, entre a justiça e a anarquia moral, mas o limiar é capaz de ligar a todos por um mecanismo natural que é aquele que constitui essas coisas todas. Ou seja, o limiar é algo esperado pelas mãos que constituem universo. Ele não é o inesperado - a não ser para nós que não o planejamos -, mas ele é parte do desconhecido.

    Ele pertence à operação própria da Criação de todas coisas que deixa sempre um rastro insuperável de porvir e de imperfeição. É como se ele estivesse a serviço do melhoramento das coisas, mas mal sabe o limiar que as coisas foram feitas propositadamente com defeito, propositadamente a nunca encontrarem o último nó que arramaria todas as cordas e estabeleceria por fim a malha de verdade a sustentar e a dirigir todo o universo. Mal sabe ele que a imperfeição das coisas é sua verdade, e que sua verdade não tem fim. 

O Caminho Desconhecido (parte 39)

    Muitos intelectuais teriam se reunido em tempos remotos e chegado a conclusão de que deveriam criar um sistema de "falsa-realidade". Ninguém nunca suporia estar enganado sobre a maneira como entende o mundo, por mais que questionasse a ordem das coisas, por mais que duvidasse das séries de ilusões que lhe foram tecidas, jamais acordaria desse sonho perpétuo.

   Dever-se-ia estudar cuidadosamente como produzir propósitos de vida - teriam pensado -, para manter as pessoas de olhos bem fechados para a verdade, eis que o preço que elas pagariam, se se descobrissem perdidas, seria muito maior do que valeria a descoberta. De tão insuportável que seria sentirem-se desterradas de suas certezas, não se poderia permitir que elas olhassem para baixo e percebessem o abismo que as sustentava. Essa verdade deveria ser mantida trancada a sete chaves - isso pelo bem de todo mundo. A Caixa de Pandora nunca seria aberta.

    A intenção desses fazedores de sensações e de apercepções das coisas seria criar um mundo que fosse digno de ser vivido a todo mundo. Partiam do ponto de que a realidade é sempre danosa, sempre agressiva, sempre produtora de tristeza, agonia e decepção. Nós seres humanos não mereceríamos isso. Deveríamos ser enganados, pelo nosso próprio bem. Não só as coisas seriam distorcidas a tal ponto que o nosso mal nos parecesse necessário e parte de um bem maior, como o fim do túnel sempre nos seria possível.

    Sempre haveria a esperança de um amanhã que nunca chegaria, pois sentiríamos que seria sempre possível alcançá-lo. Mais do que pensar numa magia que sempre nos envolveria pelas promessas que invoca, as pessoas sentiriam tal poder mágico como sendo a mais pura realidade e o teriam como sua verdade. Não só a razão seria lubridiada, isso não seria suficiente. As emoções, as sensações, os órgãos... todos eles seriam apanhados na teia onipresente das entidades fabricadas.

    Naqueles tempos remotos, aqueles pensadores teriam articulado essas coisas e teriam preparado em segredo o início de uma nova era, a Era das Imaginações (outros preferem Era dos Poderes, outros Era das Centralidades, outros ainda Era da Transcendência e alguns Era dos Espetáculos). Há quem ainda defenda tal era, que planeje o seu retorno - se é que ela de fato existiu. Ela não nos abandonou certamente, em todo caso; ainda vive em nós quando, de tão fatigados pelo mundo que nos rodeia, não temos outra alternativa que não nos inebriarmos de nossos sonhos e de nossas esperanças.

    Mas desde quando resolvemos acordar todas as manhãs de nosso sono de fantasias, desde quando o dia retornou como arena mais esplêndida e digna para as mudanças que esperamos, desde quando não mais dependemos de que outros teçam o mundo que gostaríamos de viver, desde quando nos tornamos os reais agentes de nossa história... Desde esse dia passamos a pertencer à Época do Imanente.

O Caminho Desconhecido (parte 40)

(pequeno trecho de aula de Introdução à Física ministrada em 2093, e que retrata a recém reificada Teoria do Limiar Primordial, que substituiu, mais tarde, a Teoria do Big Bang, antes que as mesmas fossem conciliadas numa só teoria).

    "No princípio de todas as coisas não existiam elementos; entretanto, também não se poderia afirmar que não  havia nada. Em tudo algo havia, algo quase gasoso, mas bem menos do que gasoso na verdade, eis que totalmente informe, e que cobria todos os lugares e se agitava para muitos espaços.

    Não havia intervalo entre essas proto-substâncias; elas eram indistinguíveis e apenas a imaginação humana poderia dar algum sentido àquela desordem total e geral - e geral mesmo; isso caso algum ser humano pudesse ter visualizado o universo no início dos tempos. Se havia algum intervalo ele era tão intermitente quanto as proto-substâncias que de tudo tomavam conta.

    Então houve um Limiar Inicial, que também foi Primordial e intransponível e que é o início de todos os demais limiares. Deu-se, como causa ou como consequência, uma agregação das proto-substâncias, que antes tinham cursos totalmente independentes. Nasceu a distância, pelo reconhecimento de uma mínima constância dos interstícios estabelecidos entre as agregações não a muito tempo inauguradas. E assim surgiu a possibilidade de constituição de todas as substâncias organizadas e funcionais, já que o intervalo tornou-se possível entre elas".

O Caminho Desconhecido (parte 41)

    Sobre um certo ponto de vista, não há muita diferença entre uma grande banda de música, uma grande universidade e uma grande empresa de televisão. Tirando a diferença gritante das entidades emitidas por uma e por outra, tanto quanto ao tipo como quanto ao conteúdo como quanto a diversidade do mesmo... tirando o fato de uma poder ser mais perene e mais respeitada que outra... tirando essas diferenças mais evidentes e tão constantemente percebidas, o que vemos? Vemos que todas elas são grandes, como já dito. São grandes emissores de entidades, capazes de formar opinião em muitos grupos de pessoas, tendo impressionante capacidade de produção de pensamentos, comportamentos e modos de subjetivação.

    De modo algum nos interessa manchar essas grandes organizações com nossas dúvidas e com nossas suspeitas. Interessa manchar nossas próprias certezas sobre a inquestionabilidade das verdades que adquirimos pela constância a que nos submetemos como receptores de entidades. Interessa podermos livrar-nos de certas amarras. Não nos interessa provar se essas amarras são justas ou não, devidas ou indevidas, maliciosas ou despretenciosas, mas interessa-nos, sem sombra de dúvida, livrar-nos delas. Se quisermos, logo em seguida, as abraçaremos novamente, se assim entendermos como conveniente, por livre e espontânea vontade, ou as rejeitaremos de vez, ou ainda as reaproveitaremos a nosso bel-prazer (tarefa que parece mais producente). 

O Caminho Desconhecido (parte 42)

    Assim acontece também com a História. Ela em si mesma é uma grande amarra. Inevitável isso, sem dúvida. Não é certo negar ou desmentir o passado. Alterá-lo aleatoriamente poderia ser uma tarefa criativa e inovadora, mas podemos, alternativamente, construir o nosso futuro. Dizer que a história não é importante seria desmercer muitas lutas; algumas justas mesmo de terem sido travadas; alguns ideais concretos mesmos e, por isso, devidamente foram perseguidos.

    Mas o problema da história é que ela coloca como acontecido o que pode ainda acontecer. Já aconteceu, então não se necessita que volte a acontecer. "Ah, a democracia? Nós já a temos, não precisamos buscá-la". E os anos? "No ano 30 era assim, mas agora nós vivemos esses novos tempos desde quando tudo mudou em 31". Bem, ninguém fala assim dos anos, mas se não estivermos bem atentos tendemos a considerá-los dessa forma, tendemos a ver que as coisas mudam instantaneamente, radicalmente, com uma nova constituição ou com um novo regime. Como se as pessoas que formam um país deixassem de ser quem são de um dia para o outro e passassem a ser, verdadeiramente, outra coisa do que eram. Isso sim seria, cremos, desmerecer a História - história dessa gente, de sua maneira de pensar, de suas idéias, de sua diversidade.

    O modo de ser das pessoas é que mudam e, só depois, sempre atrasadas, é que vêm as revoluções, as leis e as constituições proclamar o que, em surdina ou à margem, já se preparava ou se estabelecia. Ou então esses decretos governamentais se antecedem às manifestações populares e impõem, com força e opressão, mudanças incompatíveis com a realidade. As pessoas é que fazem a História - não as leis -, a menos que nos mantenhamos inertes e que deixemos que outros a constituam para nós.

    Se é mais complicado mexer nas versões que nos são contadas sobre o passado - pois não estávamos lá para as refutarmos -, façamos a história de nossa situação presente para as gerações futuras... Mas mesmo algum passado é possível recriar, seja por imaginarmos passados diferentes, seja porque há o passado dos mitos, das crenças e das histórias incertas, sempre passíveis de acréscimos, hipóteses, suspeições e invenções. Teçamos o futuro também, cuja história já começou. O imaginemos se quisermos... Teçamos o agora como futuro, o futuro como passado, o passado como presente.

    Denunciemos o agora para que mais na frente ninguém ouse invocar um passado que nunca nos ocorreu, em nome de um presente que seria glorioso. 

O Caminho Desconhecido (parte 43)

    Temos que admitir outra possibilidade de conceituar o limiar. Pois sim, por um lado podemos vê-lo como essa zona de instabilidade que se cria entre as extremidades. Mas poderíamos vê-lo de outra forma. Poderíamos continuar a supô-lo com esse seu caráter inquieto, mas sem ter de associá-lo necessariamente ao movimento das extremidades ou sem ter que caracterizá-lo sempre em sua relação com as mesmas. Assim, dessa forma, desconsiderando-se a dinâmica constitutiva do limiar, pode-se passar a focar em suas possibilidades efetivas de atuação (que não é totalmente o que se fez por aqui, pois se ateve também à dinâmica constitutiva).

    O limiar poderia então, por esse artifício, ser visto como autônomo. Poderíamos vê-lo ainda de maneira mais abrangente, alcançando grande parte do território daquilo que poderíamos denominar de posições. Já foi dito que o limiar é o que está entre - e supomos que seja entre os extremos. Mas devemos considerar que esse "entre" não é unívoco, não é singular. A diversidade de tal interstício se daria, imaginamos, ao ser englobar uma vasta gradação que perpassa diferentes posições (apenas duas ou até muito mais de duas). É como se o limiar tivesse um território mais real, que seria bem pequeno, e outro imensamente maior, que seria seu território potencial (a que, por convenção, chamaremos de interstício). Portanto, para evitarmos confusão, é bom referirmo-nos ao limiar como sendo essa região mais estreita e mais "magnética" do interstício.

    Os extremos seriam os ápices das posições. Talvez os ápices pudessem ser confundidos com os limiares, mas acreditamos que deveríamos imaginar que poderia haver um ápice final para as posições que não se confudisse com nenhum limiar e que, portanto, não admitisse nenhum ponto de encontro com outras posições. O ápice não é limiar justamente porque não admite ponto de encontro, não admite vislumbrar minimante aproximar-se com o que lhe é estranho ou diferente.

    Pensamos, muitas vezes, em termos de tudo ou nada, direita ou esquerda, ou seja, de forma bipolar. Mas existem outra posições possivelmente, como aquela à nordeste e aquela à sudoeste (e não só aquela a norte e aquela a sul, ou aquela à direita ou aquela à esquerda, ou aquela do bem e aquela do mal, ou aquela do dia e aquela da noite), e em todas elas poderíamos observar ápices. Ápices são o que mais ferrenhamente assegura a defesa de uma posição, são suas proposições mais fervorosas, mais defendidas, mais guarnecidas com as armas que cada uma dessas posições possuem. Os apices estão relacionados aos fundamentos, às regras básicas de uma posição - talvez sejam idênticos a eles.

    Existiriam, portanto, outras posições. As coisas não se dividiriam da maneira dual como nos habituamos a vê-las. As posições podem ser muitas e poderíamos aqui convecionar que elas abrangeriam todas as coisas. Nas posições, como dito, encontramos os extremos (ápices). Os pontos cardeiais parecem ser uma boa maneira de visualizarmos isso. A divisão cardeal se expressa em várias posições que se definem pelos seus extremos, mas não se limitam a eles. Certamente haverá uma linha fina, fronteiriça, a separar essas posições cardeais das outras que lhe são vizinhas - e chamaremos essas regiões de limiares.

    Por certo poderemos imaginar que próximo a essa região fronteiriça os pontos que aí se avizinham - embora coagidos a se definirem como pertencentes às áreas cardeais a que pertencem - perceberão não haver muita divergência e diversidade entre eles, perceberão que a qualificação que lhes é dada não lhes diz a verdade sobre si. Perceberão que não são tão diferentes desses outros pontos que se avistam, que se avizilham e que lhes parecem mais parecidos do que outros cuja rotulação é idêntica a si (ou semelhante), mas que em quase nada lhes são próximos.

    Diante do que temos apresentado - e apenas a título de depuração de nossas idéias - parece claro que o ponto cardeal denominado norte, por exemplo, é um nome genérico demais, pois acabamos por esquecermos que o que existe, de fato, é uma vasta área que, por alguma convenção, é entendida como concernente a isso que se chama norte. Também podemos perceber que essa convenção resulta da hipótese de que essa vasta área possuiria um ponto limite, um extremo, onde acabaria o norte . E esse norte se definiria e se aperceberia como tal justamente por ver-se como um ponto extremo e em total oposição ao outro ponto extremo (que se costuma chamar de sul), já que ambos estão simetricamente distantes em relação a um ponto central. É como se constituísse dessa forma um espelho para além da linha fronteiriça entre eles, no qual cada uma das posições poderia ver seu reverso refletido.

    Também se define esse norte por sua relação com outras áreas adjacentes e outras mais distantes, todas elas perfazendo todo o campo possível e imaginável das coisas, englobando-as totalmente e, ao mesmo tempo, limitando-as unicamente nessas rotuações (os pontos cardeais) que não só arrogam-se no direito de classificar todas as coisas, como não admitem que outras classificações se imponham a eles - ou, quando admitem, elas não tem o mesmo peso e a mesma autoridade que eles possuem em definirem a localização e o lugar das coisas.

    As posições se qualificam a partir de sua relação com os extremos (ápices), portanto. Os extremos se definem, especialmente, na sua relação com o outro extremo que lhe é simetricamente oposto. É a distância entre os extremos que lhes atribuem essa natureza conflituosa que possuem. O limiar é o que dá a noção tamanha dessa distância, já que quanto maior o espaço entre os extremos, mais ele se desenvolve.

    A progressiva distância entre os extremos distancia também elementos das posições e, no interstício entre os extremos, surge o limiar. Esse notável vácuo (o limiar) é como a membrana da céula que possibilitará as operações orgânicas entre o interior e exterior, entre um lado e outro. Mas a confluência não se dá, inicialmente, para dentro das posições, ela se dá no próprio limiar - para dentro dele. É para ele que emergem as substâncias menos arrefecidas às posições e que constituirão algo de novo que ainda não tinha espaço para nascer. É possível imaginar que, após o estabelecimento de uma congregação no interior do limiar, a tendência é uma nova dispersão (talvez causada por algum evento radical, como o da explosão que originou o universo), que depois suscitará um novo limiar e assim sucessivamente e infinitamente. 

O Caminho Desconhecido (parte 44)

    Os Anos Jovens sucederam 73 - há quem diga que sucederam 2088, com a Última Derrocada - e representaram o início de uma nova época - ao menos no cenário político, pode-se dizer que as mudanças deram-se nessa datação. Época do novo regime e época do fim das oligarquias partidárias (do fim da Monarquia dos Partidos - era como preferiam alguns mais radicais).

    E assim o é porque, como sabemos, a participação popular tornou-se obrigatória na própria decisão de quais pessoas seriam escolhidas para serem candidatos do partidos, de modo que as convenções partidárias, para escolha de concorrentes aos cargos políticos, tornaram-se quase idênticas às próprias eleições.

O Caminho Desconhecido (parte 45)

    Quando se associa as entidades a adjetivos assim se faz porque os adjetivos são justamente isso que qualificam os nomes das coisas. Falou-se bem: o nome das coisas, não as coisas, já que não parece haver uma qualificação que possa, de uma vez por todas, dizer o que as coisas são. O que se pode dizer sobre as coisas abrange uma gama infinita de possibilidades e, de tudo o que se diz sobre elas, parece que nada nos causa tanta impressão do que os adjetivos. Se dizemos que uma coisa é boa ou má isso já nos parece dizer muito mais do que uma série de descrições que poderíamos atribuir à mesma. Evidente que isso faz com que nos perguntemos sobre uma série de questões como, justamente, essa capacidade "enganadora" do adjetivo em nos fazer ter uma impressão total sobre as coisas; impressão que, embora superficial, posiciona muito bem o lugar daquilo que o adjetivo qualifica. Isso deve se dar pelo peso que os adjetivos têm. Peso que não advém deles apenas mas de toda rede de entidades a que ele pertence.

    O adjetivo "bom" ou o adjetivo "mal" estão respectivamente associados a uma vastíssima gama de nomes, imagens, sons e outras entidades - e, a estes todos, nós atribuímos a qualidade de bons ou maus. Portanto, dizer que uma entidade é boa, é equipará-la, de certa forma, a todas as outras entidades que também julgamos como boas. É como se disséssemos que tal coisa é boa como a coisa A, como a B, a C, a D... a X, a Y e a Z. É como se a ligássemos a uma rede muito maior do que a que seria ligá-la a uma descrição meramente nominal, sem muito valor de qualificação, sem algum adjetivo de importância. Mas o problema do adjetivo está justamente aí, nessa sua natureza globalizante, pois sabemos que as coisas não se equiparam tão amigavelmente, sem delongas, sem apartes e sem ressalvas, como ele nos faz supor. Não que não possam haver outros tipos de palavras que tenham esse poder de qualificação (substantivos, pronomes, advérbios, etc.), mas é que geralmente - nos parece - são os adjetivos que detém essa capacidade mais global e classificatória.

    Resumindo um pouco o que estamos discutindo, podemos ratificar que o adjetivo é o que qualifica um nome, uma imagem, um som (mais do que as coisas, pois estas estão sempre além de qualquer qualificação); mas, como já dito, não só o adjetivo qualifica, pois outros nomes também exercem esse papel, em geral de forma menos totalizante e, por isso mesmo, sem rotularem tanto as entidades. É de se frisar também que podemos qualificar as coisas de várias formas, talvez infinitamente, e nos parece que é essa qualificação (por nomes, adjetivos, por sons, por outras entidades) que é o que forma isso que chamamos de entidades.

    As entidades são o resultado da qualificação das coisas. Qualificação que deva se dar por meios inimagináveis. Por exemplo, podemos imaginar que uma entidade possa qualificar a outra. Isso parece acontecer quando imagens e sons se misturam. Qualificação que ocorre nos dois sentidos - no exemplo citado, as imagens acabam por qualificar os sons e estes as imagens.

    Assim por mais poder de qualificação que tenha um adjetivo não é incorreto afirmar que ele acaba por ser afetado por aquilo a que ele qualifica. Ao dizer que a mesa é boa, a idéia "boa", esse adjetivo, passará, a englobar a noção de mesa. Evidente que num adjetivo tão poderoso como "boa", a pobre mesa quase nada intereferirá na afetação que tal adjetivo trará a elementos futuros. A menos, talvez, que a imagem da "boa mesa" passasse a ser algo frequente nas consciências a tal ponto que ao se falar de "boa" logo se associasse o termo a "mesa".

    Sendo assim, inexorável parece que a frequência com que se associa uma entidade à outra, faz com que elas permaneçam indefinidamente associadas, mesmo que apenas uma delas seja invocada para descrever ou adjetivar outra entidade qualquer. Quando uma é invocada para qualificar um objeto, quase instintivamente a outra é ligada a ele, mesmo que quase inconscientemente. Verdade que não só a frequência é capaz desse efeito, mas o "impacto" de entidades. Como se uma exposição "traumática" (muitas vezes prazerosa) às entidades fosse capaz de causar essa "marca" na consciência e no espírito, de modo a que sempre associemos uma a outra, já que ambas estavam juntas, como que uma coisa só, naquele dado momento que nos proporcionou aquela experiência única. 

O Caminho Desconhecido (parte 46)

    Falta uma parte de nós. Ela ficou solta por aí, não a encontramos. Nos dias de glória para nossas esperanças nós nos achávamos inteiros. Agora há apenas essa meia-luz, esse quase-ser, essa quase-vida, esse constante perecer. Mas o nosso maior temor é perder essa meia parte que nos resta. Como já perdemos a primeira, nada garante que a outra parte se conservará.

* * *

    Tu, ó noite, que regozija-te de tua escuridão, lembra-te que é a falta de claridade que te mantém assim. Lembra-te que essa tua névoa obscura não é mérito teu. Lembra que você é fruto da negligência do dia.

    Tu, ó dia, não te maravilhe com teu esplendor. Lembra-te que não há reis sem súditos. Lembra-te que tua glória advém de nossa servidão. Lembra-te que a necessidade nos impõe a ti.

    Tu, ó homem, lembra-te que não és o dia nem a noite. Lembra-te que não és senhor de si; mas se fosse bem verdade que não serias o que é. Lembra-te de tua carga, de teu peso, de teu penar. Lembra-te que não és pleno, e, por isso, com mais razão deves se inquietar.

    Tu que não és dia, que não és noite, que não és homem. Lança sobre o mundo a vontade de tua Razão. Tu que sabes de tudo, que sabes de todos, dai a cada um o que merece. Dai ao dia a perfeição que tanto persegue, a perfeição sem tolerância. Dai à noite uma escuridão sem fim e sem amanhecer. Deixe ao homem viver em plenitude a sua mortalidade. Deixe que ele siga seu frágil trajeto. Deixe-o ser humano. 

O Caminho Desconhecido (parte 47)

    Há outra forma de se ver a transcendência. Não como aquilo difícil de delinear - que é como geralmente se pensa a transcendência -, mas como aquilo que não existe, a não ser na imaginação. Esta última é que foi a transcendência mais combatida e criticada por alguns, mais reutilizada e modificada por outros, de acordo com as intenções dos diferentes grupos do Imanente. Mas essa transcendência, apesar de todas as considerações críticas à mesma, ainda continua sendo uma alternativa ao intelecto, e os próprios grupos do Imanente, como já dito, se valeram dela - não temos dúvida -, mesmo que fosse para levá-la para fronteiras e searas nunca antes visitadas.

    Essa transcendência do que não existe pode equivaler-se a um inexistente que se encontra em estado imaterial porque outra coisa lhe toma um lugar que poderia ou deveria ser seu. Ou pode equivaler-se a algo que nunca existiu ou algo que é impossível que exista. Essa coisa que nunca se viu, ou que não se vê mais, poderia estar entre nós ou não - em todo caso, não está ou está apenas para alguns e não para outros. O nunca-possível, o possível-sempre-inexistente e o possível-por-ora-inexistente, passam a ter, pelo conceito supramencionado, seu lugar no mundo das imaginações. Apenas lá no Imaginário é que eles existem (para algumas pessoas ao menos), pois se algum deles se tornasse real, deixaria de ser transcendental. Percebemos, portanto, que a transcendência, em sentido amplo, abrange não só oindelineável, como o inexistente.

    Estranhamente, a transcendência é tão próxima a nós, em certos casos, como irreal. É como se ela adentrasse na realidade através de nós. Podemos falar que certas coisas que imaginamos não são palpáveis, que não as vemos no mundo tocável e sensível, mas, ainda assim, somos capazes de as associarmos com as entidades de modo quase inequívoco, como se elas realmente tivessem uma relação indubitável uma com a outra. Essas coisas que imaginamos nos são incrivelmente presentes e afetam nossos sentidos pelas alusões e analogias que suscitam e pela semelhança com outras entidades. Elas estão presentes em grandes obras literárias, nas sonoras e nas visuais.

    Por certo não podemos esquecer do indelineável – do qual não falou-se até o momento -, que compreende a apresentação - a nós - de uma realidade inapresentável, embora existente. Isto é, trata-se de algo que existe, mas que seria praticamente inapresentável em sua totalidade; é descritível apenas de forma imperfeita, alegórica ou enigmática. Talvez seja aquilo de que falam os poetas, os loucos e os místicos. Pois os sentimentos, as sensações, retratados por eles, são reais; estão pulsando em verdade inequívoca em suas carnes, embora, por vezes, só encontrem formas de expressão absurdas e notadamente inverídicas. 

O Caminho Desconhecido (parte 48)

    Existe um instante em que a idéia vem a nós, espontaneamente. Pronto... aí começará a se desenrolar uma decisiva batalha. Uma série de imagens, expectativas e costumes irão se impor a essa idéia e buscarão subjulgá-la. Nesse momento se deverá não deixar que pensamentos recorrentes e comuns nublem a recém chegada novidade que se instala na consciência. Não precisa que seja uma idéia radicalmente diferente e absurdamente exótica; pode ser sim, mas pode ser também uma idéia inédita apenas, única de certa maneira, ainda que nos pareça simples e sem importância. Ela pode parecer Comum, pela vizinhança que estabeleça com nossas idéias mais recorrentes, ou pelo fato de ter sido um acaso simplório que a trouxe a consciência.

    Mas a partir do momento em que ela é registrada, atingindo a tinta da caneta ou os bits de um computador, essa idéia adquire certa imortalidade concernente a todo escrito. Ela perpassará o nosso próprio tempo e o depois de nós, surpreenderá a nós mesmos em momentos futuros - embora pensássemos antes que era uma idéia sem importância -, e ainda poderá ser unir e articular-se com outras idéias futuras, com as quais nem poderíamos sonhar nenhuma conjunção prévia. Idéais antes simples, mas que poderão formar conjuntos muito mais complexos e plenos de sentido - sentido que variará em valor e significado, tanto ao longo do nosso tempo, como ao longo de todos os outros tempos.

    Caberá a astúcia do pensador abrir-se ao novo, portanto, iluminar-se com o diferente, desater-se e desatar-se do convencional. As idéias surgem, não há o que olvidar quanto a isso. Elas surgem quando menos as esperamos. Elas se impõe a nós e quanto menos filtros usarmos, quanto menos as ordenarmos conforme nossos organogramas e nossos sistemas, mais elas terão possibilidade de nos surpreender, mais elas navegarão por águas não visitadas e mais chances terão de avistarem terras não conhecidas.

    Bem verdade que, às vezes, nos impomos a missão de freá-las, de torná-las apresentáveis, encantadoras. Também as freamos pois não nos contentamos com a liberdade delas ou, mais especificamente, exigimos que elas desgastem um pouco a flexibilidade e a navegabilidade que lhes são inerentes, para que ampliemos conhecimentos e pensamentos sobre águas já conhecidas. Sim, conhecidas, pois parece muito mais impressionante descobrir como incrivelmente novo algo que se tinha como profundamente desvendado do que descobrir uma verdade incrivelmente esplendorosa mas que nada nos diga respeito. Isso é verdade no que se emite, no que se expressa. Mais valor terá o que nos concerne, o que sentimos vivacidade em transmitir.

    Por todas essas coisas é que dizer as coisas simples voltou a ter importância; seja porque nunca é demais repetir algo que se deseja enfatizar diante de tantas entidades sempre tão mais proeminentes e incessantes, seja porque as coisas mais simples deixaram de ser ditas, tornam-se às vezes esquecidas e abandonadas. Tudo que diz respeito ao Comum (e o simples diz respeito ao Comum) adquiriu características depreciativas. É preciso exaltar o Comum, tirá-lo desse status Comum, por um instante, pois isso parece a única forma de reavivá-lo.

    Importante observar que o Comum não é necessariamente o popular, nem mesmo o difundido-em-massa. Ele pode ser o habitual de cada um, o simples de cada um, o simples da vida. Pode dizer respeito a muita gente, a todo mundo, mas isso não é uma regra indispensável a ele. Mas parece dizer respeito às coisas que têm sido ignoradas - assim pressentimos, como também arriscamos que nem sempre foi assim.

    Se quisermos que algo seja notado, nunca é pouco cultuá-lo, colocá-lo em evidência; por mais simples que seja aquilo que imaginamos, é possível registrá-lo para a posteridade. 

O Caminho Desconhecido (parte 49)

    As Centralidades dominavam o mundo – das entidades. Elas ditavam a ordem das coisas tal como as percebíamos e entendíamos. Seus destinos, seus caminhos, eram influenciados por elas. A história tem se mostrado variável, mas, alguma coisa, em seu curso, em seu processo, teria resistido a alterar-se: as Imaginações. Desde os teatros gregos, desde os coliseus romanos, desde as cortes e seus bobos, teria se perpetuado o domínio das Imaginações (a despeito da ou impulsionado pela tendência humana ao devaneio); razão pela qual esse último percurso temporal milenar foi chamado de Era das Imaginações.

    Não que agora elas, as imaginações, tenham se extinguido – por certo que nem desejamos isso. Não que os espetáculos tenham cessado. Mas houve um certo momento em que as pessoas passaram a crer que estavam por demais dominadas por imagens produtoras e inibidoras de ações (pelas imaginações portanto). Por imagem aqui se entenda o sentido mais amplo da palavra, ou seja, imagens visuais, sonoras, palavras, outros mais, a combinação deles. Todos eles teriam se organizado interna e externamente e entre si, teriam evoluído estruturalmente e na capacidade de articularem-se com os demais entes.

    Essas imagens sempre estiveram nas obras de arte, na técnica e na criatividade do homem e, no princípio, serviam mais como objeto dele, eram instrumentos dele. Pouco a pouco teriam servido de dominação de uns contra outros. Não que fosse fácil admitir isso, especialmente porque se tratava de um processo muitas vezes inconsciente e, em outras vezes, tratava-se de um processo complexo, que envolvia aspectos negativos e positivos. Ou seja, a comunhão de idéias, o deixar-se influenciar por elas não era necessariamente um mal. Por isso mesmo não é tão interessante talvez, ao menos por ora, julgarmos esses acontecimentos passados como totalmente bons ou totalmente maus, mas investigarmos se eles foram reais, se nos sentíamos mesmo enredados nessa teia tão envolvente de entidades, se elas de fato nos conduziam, nos oprimiam ou nos libertavam aqui ou acolá. Onde elas nos subjugavam? Onde elas nos alegravam? Qual trama havia por detrás desse processo todo? Talvez essas sejam perguntas válidas.

    Será mesmo que existiam obras que, de formas de expressão magníficas, passaram a controlar a subjetividade e volição humanas, exercendo sobre nós muito mais poder do que poderíamos imaginar? Até que ponto éramos conscientes disso, até que ponto éramos coniventes com isso, até que ponto víamos positiva ou negativamente isso? E hoje, em pleno limiar do século XXII, como vemos essas coisas, como vemos essas imaginações, esse poder capaz de grandes criações e tantas dominações? Poder que seria sedutor, aparentemente sábio às vezes e inatacável, mas enredado por vezes com tantos outros poderes. Poder que atribuía-se um direito de expressão calçado numa liberdade fundamental. Poder que tinha como causa de ser essa liberdade incondicional, mas que em suas atitudes e em seus efeitos seria parcial e seletivo, tanto no que se emitia e transmitia como em quem isso o fazia (ao menos essas são as acusações do grupos do Imanente, como bem o sabemos) – pouco importa se havia culpa ou se havia implicação nesse processo. Parcialidade que existiria, eis que imerso esse poder estaria em interesses indizíveis - conscientes ou inconscientes pouco importa -, talvez até impensáveis ou impronunciáveis por aqueles que poderiam pronunciá-los (por grande partes das pessoas comuns que viviam àquela época, já que elas mesmas seriam dependentes desse estado de coisas e por ele seriam enredadas) e seletivos dado a limitação – inevitável – do espaço de transmissão e dada a necessária escolha do que seria transmitido (escolha também, inevitavelmente, abalada por interesses).

    Como se pode notar, a crítica se atinha sobre essas grandes centralidades – todas elas – que acabavam por ter grande influência sobre as entidades que seriam transmitidas em detrimento de outras. A crítica voltava-se também para a possibilidade de emissão, já que uma minoria dispunha de poderosos aparelhos de emissão de entidades. Não que não fosse possível conquistar espaços de emissão, mas alguns sempre foram secularmente proeminentes, outros possuíam espaços bem restritos, largamente e comumente já acessados pelas pessoas, de modo que era muito difícil reverter a situação instalada. Mas como não era uma tarefa impossível, havia muitas alternativas e searas a se explorar, havia muitos espaços a conquistar, havia muito a ser emitir e havia muito a se criticar. Portanto era o caso de as pessoas despertarem para o fato de que não deveriam manterem-se passivamente como receptoras de entidades.

    Os grupos do Imanente abordavam esses pontos, além de vários outros que nos são bem conhecidos. Sabemos que o fortalecimento das centralidades suscitou a contínua crítica às mesmas, promovendo uma considerável descentralização que, impulsionada pelo surgimento de inúmeros novos emissores, tornou-se uma das mais marcantes características pelas quais podemos descrever a grandiosa reversão histórica operada a partir da segunda metade do século XXI.

O Caminho Desconhecido (parte 50)

    Já que se pode acrescentar letras e sons não existentes às palavras, o mesmo pode-se fazer com as outras entidades. Isto é, pode-se acrescentar imagens não existentes entre as imagens, acrescentar pedaços nelas, o mesmo se podendo fazer com as músicas. Pode-se mudar a ordem de todas elas dispondo, as primeiras que se apresentam, no fim. Podemos recriar os finais dos conjuntos e das obras que as organizam, podemos alterar a disposição conjunta de imagens, sons, palavras. Podemos acrescentar tonalidades, retirá-las; promover misturas inimagináveis.

    E se quisermos criticar uma imagem ou modificá-la, o façamos com um texto ou com uma música, de preferência. Para alterar um texto, introduzamos nele uma música, uma imagem. Nada pior que valer-se dos mesmos entes para criticá-los. Palavras são corporativistas, não estendem-se para os domínios que lhes excedem. Os mesmos vale para as imagens, os sons.

    Todos eles são intercambiáveis e produzem conjunções em que o todo parece algo diferente da mera soma de suas partes. É de se notar que as palavras estão presentes em meio à maioria das entidades mais proeminentes, ou seja, àquelas a que estamos mais constantemente expostos. É possível que uma mudança no poder e no sentido das palavras implicasse, muito provavelmente, em desordens nas demais entidades e, mais ainda, no conjunto delas (nas músicas, nos filmes).

    Mas é possível imaginar, alternativamente, que o próprio valor das palavras advém justamente do emaranhado de entidades em que se encontram – emaranhado à que estão sujeitas. Interferir na configuração de toda essa teia, produtora de sensações e imaginações, bem provavelmente alterará o lugar das palavras nas hierarquias e organogramas ditos universais.

O Caminho Desconhecido (parte 51)

(provérbio mexicano da década de 1970 – séc. XX – Dias Antigos)

    “Não tem trabalho ruim; o ruim é ter que trabalhar”.
 
* * *

    A seguir, alguns grupos anteriores e posteriores à Época do Imanente. Alguns mantiveram-se até o início do século XXII. Uns se extinguiram, outros diminuíram em importância; outros se fortaleceram.

- Associação dos Consumidores Esclarecidos (ACE);
- Sociedade dos Amigos da Liberdade, da Verdade e da Igualdade (SALVI);
- Organização das Forças Irmãs à Comunhão Econômica (chamados pejorativamente de “neomarxistas”, como os da ACE e outros mais - alguns assumiram o apelido);
- Centro de Estudos dos Textos Reflexivos e Orientadores (CETRO);
- Missionários da Economia do Futuro (chamados apenas de “missionários”);
- Irmandade pelo Consumo Organizado e Doutrinário;
- Sociedade Caminhos do Ignorado;
- Espaço Criativo Idéias do Amanhã (chamado só de “Idéias do Amanhã”);
- Associação Transcendente Realidade Alternativa (apelidados de “Místicos”; sem referência a misticismo, entretanto);
- Sociedade Imanente Renascer (chamado só de “Renascer” ou “o pessoal do Renascer”);
- Sociedade das Entidades Eternas (SEE – vulgo “Sé”);
- Grupo Transcendente Novo Amanhã (chamado mais por “Novo Amanhã” ou por “Grupo Novo Amanhã”).

    Evitamos colocar os vários grupos que possuem os adjetivos “imanente” ou “transcendente”, pois estes eram muitos e seria enfadonho citá-los.

O Caminho Desconhecido (parte 52)

Assim é o que é
O que ninguém tem,
O que ninguém vê,
O que ninguém pode.

Não é fácil de falar,
Não é mole não,
Isso que também nos apraz,
Isso de que desconfiamos.

* * *

Ó Futuro,

Eu fico aqui pensando,

Em você, já que é nosso único conforto

De ti só insinuações, previsões, definições... nenhuma certeza

Ó Futuro, que já vens até nós,

Nos nossos sonhos, nas nossas esperanças,

Você é o nosso amanhã

Tu que está depois de nós, que resistirá e permanecerá,

Tu que não imagina o seu não-ser,

Ouve agora a minha voz, ouve a voz do passado

Nós não pudemos lhe acompanhar,

Antes de ti nós ficamos no caminho,

Nessa margem intransponível

E daqui, dessa praia sem embarcações a daqui nos tirar,

Olhávamos o infinito mar

Sim, futuro, daqui ousamos te observar,

Buscando no infinito oceano,

Algum vestígio de tua passagem

Daqui nós te esperamos,

Nós te imaginamos,

E desejamos que viesse nos salvar

Guarda para você o teu passado,

Nós que ficamos para trás

Guarda para você essa terra abandonada

Mas não fica, vai,

Vai e permaneça em tua águas,

Sempre inesperadas.

O Caminho Desconhecido (parte 53)

    Haveria uma parte potencial em todo saber. Este se constituiria não só com base em um passado que nos encaminhou até as possibilidades limitadas que nos enredam; não só com base num presente intacto, intransponível, inerte. O conhecimento antecederia – ou poderia anteceder – um outro nível de realidade. Na verdade, a própria realidade seria acompanhada de um espaço potencial, um espaço não pré-existente ou incompreendido; a forma como se conduz o saber poderia nos levar a um ou a outro nível de realidade. Este seria o campo político de todo saber.
   
    Isso é imprescindível de se apontar. Pois depois que a escolha é feita pode-se não poder voltar atrás. "A vaca pode já ter ido para o brejo". E tão importante quanto as verdades é o cuidado que se deve ter com as mesmas, é o destino que se dará a elas, é o zelo e a sabedoria para guardá-las e transmiti-las.

O Caminho Desconhecido (parte 54)

    Inverno semântico é o que vivemos. Frio intenso para as palavras, sempre tão exprimidas pelos sentidos e as coisas, que se impõem às primeiras. Mas de onde vêm essa sensação térmica? Do que advém essa noite avançada que não permite o porvir do dia? Por que tememos esse porvir, porque não abraçamos a mudança? Por certo que não resistiríamos ao brilho do raiar desse Grande Dia, sonhado e temido; nós sucumbiríamos ao seu calor. Por isso mantermo-nos nessa noite sem amanhecer, por isso essa madrugada sem fim, sem esperanças maiores, sem ameaças a nossas verdades cotidianas.

    Inverno das trilhas e sendas programadas pelo destino. Clima que nos oprime por nos deixar sem fugas, sem saídas evidentes e efetivas. Vemos a realidade e ela olha para nós, nos envolve, mostra seus limites atuais, nos entristece. Realidade que nos é mostrada, realidade das amostras, das cenas sobrepostas, de nossas próprias cenas, de nossa própria encenação. Realidade que seria impossível apreender em sua verdade absoluta; mas, em todo caso, nem ao menos nos interessamos em apreendê-la, minimamente que seja – nem temos tempo para isso.

    Onde está o fim do túnel? Onde está a curva que nos levará a uma estrada mais esplêndida, nos arrancará desse limbo e nos restabelecerá os dias nunca vividos, mas sempre tão sonhados? Onde estará nosso caminho desconhecido?

O Caminho Desconhecido (parte 55)

    Os transcendentes não acreditavam em entidades puras, tais como o amor e obem, já que tais ideais não poderiam ser evidenciados em plenitude; não seria possível que alguém chegasse e atestasse com firme certeza: “vejam todos, isso é o bem". Por isso, como forma de crítica àquilo que fosse julgado como inequívoco e inegável, eles inventaram um pequeno, mas amplo artifício: acrescentar o prefixo “contra” às palavras. Com isso, criaram um dispositivo de reflexão a todas as entidades, já que todas estas são - minimamente ao menos - traduzíveis em linguagens.

    A noção de contra-controle, como bem sabemos, foi muito utilizada no cenário político (não pelos transcendentes, é claro), servindo como forma de crítica aos poderes centralizados e suas atividades de controle; controle muitas vezes executado em nome do bem-comum e em nome do bem-estar da sociedade. A noção  de contra-controle é uma entre tantas idéias cuja origem transcendente foi praticamente esquecida, mas que determinou sobremaneira os destinos do pensamento cultural atual (2193 DC - Dias Imanentes). É interessante reparar que usualmente falamos dos transcendentes e dos imanentes no passado, como se ainda não existissem entre nós. Isso parece apontar o quanto suas contribuições foram mais significativas e necessárias naqueles tempos.

    Do vácuo intransponível entre as entidades e as coisas é que residiria a impossibilidade de sobrepor umas às outras. Essa é a verdade que os transcendentes sustentavam; e tiravam dessa crença toda a força crítica que opunham às verdades inquestionáveis; daí é que emanava toda contestação que faziam a qualquer projeto de definição e de arranjo da realidade que se proclamasse o melhor ou o mais correto. Onde havia certeza, os transcendentes enxergavam ilusão; onde havia convencimento, eles viam enganação; onde havia juízo moral, eles denunciavam interesses pessoais. Assim era o método intelectual dos transcendentes. Não que as certezas, o convencimento e a moral fossem completamente falsos em si; o problema era quando eram invocados como forma de se erguer axiomas ou como forma de se delimitar lugares privilegiados e poderosos ou como forma de se estabelecer hierarquias.

    Entre as entidades e as coisas haveria esse espaço, infinitamente preenchível. Portanto não se tratava de reafirmar um impossível em todas as representações, como já teriam feito no passado. É verdade que se tratava de afirmar um impreenchível; mas isso implicava numa tarefa positiva: a de um preenchimento infinito das coisas por meio das qualificações. Esse processo, de criação e de construção das representações da realidade, apontava para a capacidade mutante das entidades perante as coisas. “Se há um impossível, isso não nos interessa”, diziam os transcendentes. Importava apenas era a capacidade ilimitada de estabelecer mudanças, em fundar verdades novas que fossem tão vivas e tão esplendorosas como as que anteriormente reinavam no mundo dos entes.

O Caminho Desconhecido (parte 56)

    Um enorme cargueiro espacial foi enviado em missão ao planeta vermelho. Era o primeiro desse tipo, e tinha como missão transportar para a Terra uma imensa quantidade de adamântio – nome que foi dado ao novo e valiosíssimo mineral encontrado nos desertos de Marte.  O cargueiro trazia esperança ao velho Novo Mundo, enquanto perfazia seu trajeto, trazendo de volta não só a carga, mas a tripulação, organizada por Quebec e pela América Republicana. Esses dois governos eram os mais importantes da América do Norte e estavam desgastados com as recentes e respectivas divisões territoriais, consequência de plebiscitos nacionais promovidos pelas antigas nações-mãe - o que acabou por abalar a solidez político-econômica da região. Mas as dificuldades ainda não iriam acabar.

    O adamântio não podia ser extraído em grandes pedaços, seja porque a gravidade de Marte dificultava essa tarefa, seja porque a atmosfera do planeta impunha-se como obstáculo, seja porque não era viável investir numa exploração de grandes partículas. Por causa desses empecilhos, qualquer alteração formal do recurso, que tivesse objetivo estritamente manufatureiro (e não de transporte), seria realizada apenas na Terra. Era a primeira missão interplanetária com fim primordialmente comercial. Era a primeira de porte tão imenso, não havia tido navegação espacial desse monte, e não se podia arcar com custos para testes ao projeto (isto é, não se podia testar a nave no espaço). Julgava-se, entretanto, que Ícaro andaria em águas já conhecidas e que a arquitetura da espaçonave era praticamente divina, sem falhas. Eles não poderiam imaginar que o Titanic iria afundar uma segunda vez.

    Um problema no reator esquerdo da cápsula de desentupimento que controla a válvula de resfriamento do macromotor atômico pifou, apesar de toda engenharia que prometia que isso nunca iria acontecer. Com o incidente, gerou-se uma explosão em cadeia que não só partiu a nave em vários pedaços - ao fim desse processo catastrófico -, como lançou as milhares de partículas do mineral adamântio em uma vasta região terrestre de nosso planeta; as partículas caíram quase que totalmente sobre a África. Elas ficaram protegidas por invólucros especialmente criados para uma possível catástrofe, mas imaginava-se que tal incidente improvável, caso ocorresse, não impediria que a carga chegasse ao continente americano.

    Providência divina, disseram alguns. Pois bem que parecia mesmo, não só pelo local em que caiu o mineral, mas porque, mais alguns minutos, e a tripulação da Ícaro não teria encontrado nave de fuga para se salvar. Ainda bem, ninguém morreu. E o adamântio não se perdeu, caiu quase inteirinho no coração do planeta, desde o Saara até a África do Sul. E iniciou-se uma séria discussão nos fóruns internacionais sobre quem teria propriedade sobre o mineral vindo do céu: a velha e pobre África e seus nada bobos habitantes, que recolheram e esconderam o que puderam; ou os sempre poderosos do norte, que defendiam perante o mundo um direito que permitiria que restabelecessem sua antiga hegemonia.

O Caminho Desconhecido (parte 57)

"Nada é permanente, exceto a mudança".
(Heráclito)

    O perigo maior da utopia não é seu caráter fantasioso, não é sua capacidade de transportar as pessoas para um lugar que não o delas; mas é sua potencialidade a ser tornar real. Este é o temor que a utopia nos traz e mais ainda àqueles que nem podem ouvir falar dela, àqueles que, mais do que nós, estão muito satisfeitos com o estado de coisas em que se encontram ou que acreditam que não existe estado de coisas melhor do que o que se encontram. Mas nós que vivemos na gangorra da vida, sempre insatisfeitos com a vida, mas sempre tendo pelo que a ela agradecer, nós que não temos seguranças maiores, nem desesperanças terminais, nós que vivemos nesse eterno limiar... Nós temos motivos para cultuar a utopia – e também para temê-la. Nossa utopia não é a dos outros e, por isso, não é qualquer utopia que nos apraz. Mas certamente a temos, a desejamos, pois é ela que nos restabelece de nossas amarguras, ela que nos manterá a promessa de encontrar a chave-mestra que nos permitirá abrir todas as portas que foram seladas pelo destino.

* * *

"O ser é e não pode não ser e o não-ser não é e não pode ser de modo algum". (Parmênides)

    As coisas retornarão a si. Chegará o dia, estejamos certos, em que a dúvida não mais nos abalará com suas incertezas. Chegará o dia em que nossas palavras não serão equívocas, pois não precisaremos mais distorcê-las. Chegará o dia em que os ideais serão caminhos certos e não essas trilhas bifurcadas e entrelaçadas graças aos interesses mesquinhos e imediatos. Um Sol irá nascer a leste desse vale de sombras em que nos encontramos. Menos do que mudança nos sentidos é nos lugares que as coisas se restabelecerão. A mudança, sim, ela virá. Restabelecendo-se os lugares das coisas é que elas voltarão a serem evidentes, certas, plenas e vívidas – as coisas boas e as ruins. Elas não serão mais titubeadas e murmuradas.

    Os que defendem alguma moral não serão enganados, mas nem os que a condenam serão prejudicados. Pois todos eles saberão muito bem do que falam, ou, pelo menos, se sentirão muito mais seguros em seu dizer – muito mais do que nos dias de hoje. 

O Caminho Desconhecido (parte 58)

    Há muitos séculos atrás apareceu um profeta. Ele ficou praticamente esquecido pela história, mas alguns achados recentes indicaram que ele de fato existiu. Próximo a terras nunca visitadas, atravessou regiões mais desconhecidas ainda e espalhou sua palavra sobre aquela gente. Ele dizia vir para dividir o que tivesse que ser divido e unir o que tivesse que ser unido. Ele pregou, pregou e difundiu sua palavra. Era uma palavra diferente, por certo, ninguém nunca havia visto algo como aquilo, ouvido expressões como aquelas.

    Ainda assim aqueles ditos entravam como flecha ardente em seus corações e lhes diziam coisas que nunca tinham imaginado mas que, entretanto, lhes parecia ser a mais pura verdade. Em alguns momentos os enigmas tornavam-se difíceis, e mesmo incompreensíveis, mas isso não diminuía em nada a força daquela sabedoria que, indubitavelmente, só poderia advir de algum plano mais superior do que aquele em que se encontravam.

    E assim era a figura daquele grande homem: alguém simples do povo, acostumado aos costumes, dedicado por muito tempo a seus afazeres, mas que percebia que havia algo errado, algo não dito, algo que precisava ser denunciado. Assim era aquele homem: a princípio um homem como os outros, mas que sentiu algo realmente divino, algo extraordinário: sentiu que havia um silêncio que não poderia ser mantido. E por isso ele falou.

    Ele anunciou que o que estava para ser dito, agora resplandeceria nos mais altos montes; o que estava escondido agora se encontraria a descoberto a todos os olhos; a verdade que antes se encontrava calada e mistificada, agora seria acolhida entre aqueles que nunca deveriam tê-la rejeitado. E dizia que "mais dolorido que enxergar o brilho ofuscante da verdade é viver sempre com uma venda que não permite perceber o que agride a seus olhos".

O Caminho Desconhecido (parte 59)

    (O texto a seguir é anterior a 73, apresenta por isso alguns elementos um pouco confusos, mas é possível perceber ideias que se consolidarão mais evidentemente entre alguns grupos, como o conceito de “formas” que mais tarde será visto quase que uniformemente como “entidades”)

    Como que corrompidas as palavras muitas vezes estão. Não nos dizem muita coisa por vezes. Valem por sua finura, espessura e incompreensão. Quando mais difíceis, mais belas podem ser nesses casos. E, quanto mais inúmeras forem elas, mais bem alinhadas à agitação das formas elas estarão - agitação que se tornou uma característica marcante de nossos tempos. Se essa agitação se deve mais às coisas do que às formas isso não importa tanto. Evidente é que esse frenesi nos comanda. Dizer, dizer e dizer: aqui estamos nós, assim também procedendo.

    Nesses tempos de domínio das imagens, tantas elas são que, por vezes, esvaziam-se de sentido. Para ser honesto, as imagens nunca foram tanto imagens – e quase que apenas isso, muitas vezes. Diferente destino não receberam as palavras: tornaram-se, muitas vezes, quase que só palavras. Talvez os sentidos não tenham acompanhado a multiplicação das palavras, acabando que apenas alguns sentidos ficam mais em evidência. Não que hajam palavras e imagens que não valham muito mais do que suas formas, do que suas superfícies – mas é que elas estão imersas, muitas vezes, num vasto batalhão de figurantes. Não que esse processo não seja reversível ou tenha que ser reversível – mas ele está aí.

    Também não cabe tanto questionar se os figurantes deveriam protagonizar ou se os protagonistas deveriam sair de cena. Claro que esses seriam questionamentos possíveis, mas aqui estamos a apontar essa disposição... essa disposição que, a uns, fornece maior sentido e, a inúmeros outros, menos – e ainda há aqueles que nem ao menos aparecem como figurantes de fundo.

    Então, do que se fala aqui? Fala-se da multiplicação das formas que não são acompanhadas pari-passo pelos sentidos (de preferência que não sejam, às vezes é o que parece que se deseja¹). Essa variedade formal, e não semântica, pode servir, paradoxalmente, para se fornecer um sentido privilegiado a algumas poucas formas. É possível – hipotetizamos – que esse sentido mais pleno possa nem ser constatado facilmente nas formas (supomos que nem precisem estar nas formas, mas entre elas); podemos supor que certa astúcia poderia instalar o sentido em meio às formas, inclusive entre aquelas de pouco sentido e que são várias².

    Alternativamente podemos pensar essa astúcia como algo que fala nas formas (de dentro delas). As formas são subdivisíveis e pode-se distinguir nelas valores, intrínsecos³ e extrínsecos. O valor extrínseco adviria da relação que essas formas estabelecem umas com as outras – supondo é claro que a tal astúcia mencionada estaria por trás dessa organização das formas, da própria possibilidade de existência das mesmas e também da forma como elas atuam.
 
____________
1 – Sobre o papel dos interceptadores na disposição das entidades ver: CHATEAUBRIAND, José da Silva Pereira. A função obstaculizante dos interceptadores na manifestação dos sentidos. Virtoeditora Óptica. São Franscisco, 2188.

2 – Nitidamente aqui podemos identificar o conceito de “interceptador” que será reificado bem posteriormente entre os grupos. Os termos entre meio bem que se aproximam da noção de limiar, também tão cara aos movimentos do Imanente, mais tarde.

3 – Aqui parece se estar falando do que mais tarde os grupos de orientação imanente chamarão “essências”.

O Caminho Desconhecido (parte 60)

(Postulado da Biologia em 2083 – Dias Imanentes)

    “O fundamental não são as duas espirais que estão presentes no DNA, mas o que as une”.

* * *

Nem tudo é tão óbvio que não possa deixar de sê-lo,
Nem tudo é tão difícil que não se possa remetê-lo
Do alto céu desvanece nossa visão,
Das profundezas, distantemente, não desaquece a escuridão
No véu em que se projeta uma o contrário da outra,
Reside a magia de um espelho providencial,
Sem o qual não se constituiria qualquer apoteose

A folha de um livro... duas páginas ela guarda,
A porta de uma casa... duas entradas ela vigia,
Entre! entre!
O espelho não possui nenhum reflexo, só o reverso
Embora hotel dos viajantes,
E vogal entre as consoantes,
E mutante entre os constantes,
Deram-lhe um bilhete eterno para tuas passagens

Vagueando entre a dúvida e a culpa,
Peregrino dos limbos terrestres
Salvar-te-á? Salvar-te-á?
Disso não se esquive ou cuidado,
À margem do Nilo ou do Aqueronte,
Mas que a acima de tudo,
Não se esqueçam de ti.

O Caminho Desconhecido (parte 61)

    Sabe-se que quem faz uma caridade não deve almejar recompensa e deve se atestar que ninguém viu a doação. Mas e se nem a própria pessoa lembrasse da caridade que fez, teria seu gesto algum propósito?

    Era um tipo de ideia exótica como essa que passava à cabeça de um certo peregrino que encontrava-se no interior da velha cabana onde estava localizado o Livro da Vida. Ele já havia se decidido a esquecer os sagrados ensinamentos que vislumbrava. Ele já havia resolvido voltar a sua humilde vida, aos seus parentes e amigos e esquecer todos os seus sonhos de poder e saber. Já haviam se passado algumas horas e ele só poderia permanecer na lendária colina por vinte e quatro delas – assim lhe disseram os guardiões do Livro.

    De que adiantava continuar lendo todos aqueles escritos fabulosos – se perguntava – se já havia se decidido a voltar para seus familiares, para seu cotidiano, para suas coisas? Não haviam lhe dito nada sobre esquecer o passado e ele não tinha enfrentado todos aqueles caminhos difíceis à toa. No fundo temia permanecer ali mais um minuto que fosse; temia continuar lendo aqueles textos tão incríveis e, no fim, acabar mudando de ideia e escolher uma vida inteiramente diferente da que vinha tendo até então. Tinha medo em cometer um erro irrevogável – isso para qualquer escolha que fizesse.

    Quanto mais tempo permanecia ali, mais se perguntava se não devia acolher a graça – e a maldição – que lhe era oferecida; mais a sua certeza de retornar ao lar se esvanecia. Já passava a se perguntar se não era ele, enfim, a pessoa certa e digna a estar ali e que teria sido providencialmente escolhida para usar os conhecimentos do Livro. Os guardiães disseram-lhe que, passadas as vinte e quatro horas, ele esqueceria a sua vida normal, como se nunca estivesse existido antes – diferente aconteceria se saísse sem decisão ou optando por sua vida anterior.
 
    Muitas vezes também pensava: “vou sair correndo agora mesmo, vou embora daqui, não posso esquecer quem eu sou”. Mas ele hesitava e não saía. Era uma tortura essa pressão que sentia em ter de escolher, pois mesmo sua omissão era uma escolha - ele sabia - e lhe traria consequências. Ainda não estava certo do que queria.

O Caminho Desconhecido (parte 62)

    Comete-se equívocos ao referir-se aos grupos formados na Época do Imanente. Para começar é importante apontar que os grupos vinham formando-se desde muito tempo antes - se não é um sacrilégio assim dizer. Isso porque sempre houveram “os seguidores de Heráclito e os de Parmênides”, como ironicamente eram rotulados. Eles sempre atravessaram as épocas e representam todos os movimentos que sempre teriam se dividido entre uma postura mais cética ou outra mais "moralista". Mas o que se viu constituir no meio do século XXI foi algo muito mais profundo. Houve uma institucionalização de grupos que se apoiavam nitidamente em uma dessas posturas, mesmo que eles mesmos não atribuíssem – e ainda não atribuem – sua forma de pensar àqueles citados pensadores.

    A confusão que se faz ao se falar dos grupos é dizer que são os “grupos do Imanente”. Desde àquela “época das grandes mudanças”, quando se usava tal expressão (“grupos do Imanente”), referia-se tanto aos grupos de orientação imanente quanto aos de orientação transcendente. Se se queria referir aos primeiros falava-se que eram, como dito, “de orientação imanente” e não que eram “imanentes”, já que os transcendentes também eram “do Imanente”.

    É confuso, nós também sabemos. E esses equívocos parecem ter uma explicação histórica. Os grupos do Imanente contam que o surgimento dos movimentos foi a 150 anos atrás, isto é, em 2043. Nada de evidentemente mais radical aconteceu de fato naquele citado ano, mas esse foi o ano em que muitos dos grupos se institucionalizaram. Esses grupos já vinham se formando nas últimas décadas, mas uma grande quantidade deles se estruturou, se ampliou e se formalizou no ano referido. Mas apenas em 2050 houve a divisão formal dos grupos em imanentes e transcendentes – de modo que, desde o início, essas duas diferentes linhas de pensamento tinham algo que as unia, algo que as fazia sentirem-se, de certo modo, numa mesma trilha, numa mesma época.

    Por causa dessas dificuldades históricas, linguísticas e de interpretação, diferentes versões sobre os termos e os acontecimentos são dadas. Mas uma grande quantidade de pessoas entendem que a Época do Imanente iniciou em 2043. Em 2064 houve a Primeira Derrocada – quase nenhuma discordância quanto a isso. Em 2073 veio a Grande Derrocada, o Grande Ano, que, embora tenha trazido grandes mudanças, foi mais esperado do que inédito, já que veio coroar todo um movimento iniciado em 2043 – ou muito antes. Daí nascem algumas discordâncias, mas a maioria parece crer que os Anos Jovens iniciaram em 73 – e todos os anos após este recebem a alcunha de “Dias Imanentes”, em contraposição aos anos anteriores a 73, os “Dias Antigos”. Em 2088 as últimas mudanças importantes foram concretizadas e institucionalizadas com a Última Derrocada.

    Nunca é demais dizer – o que todos já sabemos – que, embora se estabeleça a cronologia dos grupos apelando para as datas políticas, a maior contribuição dos grupos, certamente, encontra-se fora do cenário governamental. Ou melhor: as mudanças políticas só puderam vir com essa transformação radical na maneira de pensar de toda uma sociedade. Usa-se aqui as datas políticas, pois assim sempre tem sido feito; é um estigma nosso ligar a nossa existência a governo – mas os próprios grupos nos ajudaram muito, bem o sabemos, a livrar-nos desse tipo de amarra ou, ao menos, a minorá-las.

    Fato é que não se pode de forma alguma – assim entendemos – atribuir o declínio das grandes centralidades como consequência de atuação governamental. Atribuí-las aos grupos do Imanente também não faria inteira justiça aos esforços de inúmeros outros grupos e pessoas que produziram a reviravolta cultural, jamais antes vista, na segunda metade do século XXI e início do século XXII – depois disso a civilização apenas seguiu essa senda já antes iniciada. Claro que houve o progressivo distanciamento entre imanentes e transcendentes que nós conhecemos - distanciamento intransponível entre os filhos de Heráclito e os de Parmênides.

    Por certo que seria injusto supor que a revolução cultural, que originou os novos tempos em que vivemos, adviria sem a atuação prévia e imprescindível dos grupos do Imanente ou, ao menos, supor que a contribuição deles não tenha sido irretribuível e inigualável.

O Caminho Desconhecido (parte 63)

    O ponto de encontro seria o que liga vários elementos do Interstício, por ação do Limiar. Mas nunca podemos nos esquecer que é só por causa desse magnetismo exercido pelo Limiar – e por sua capacidade de unir diferentes posições – que os diversos passam a congregar por infindáveis motivos possíveis. Sendo assim, não precisamos pensar o Limiar como sendo algo único.

    Poderíamos, já sabemos, pensar o Limiar como mutante o suficiente e magnético o bastante para manter o Interstício sobre seu comando. Mas é possível, alternativamente, imaginar que um limiar é alterado por um outro, que poderá merecer ser escrito com letra inicial maiúscula, desde que passe a ser a região de maior influência do Interstício. É sempre de se notar que o interstício não parece ser região milimetricamente definida. Ele se caracteriza de acordo com as várias posições que ele engloba em parte, de acordo com as fronteiras, os limiares, entre essas posições. Um Limiar, que é central e primordial, pode existir, formado a partir desses limiares e dessa configuração do Interstício.

    Se o interstício é esse ambiente dinâmico, em processo, parece sensato pensar que haveriam limiares vários que se apoiam, alguns podem divergir e poderia haver um maior entre eles que alcançasse maior campo de domínio. Ora, é fundamental pensar nessas divagações aqui expostas. Pois, bem lembramos, o limiar pode congregar com ambas as extremidades, com nenhuma delas ou com uma apenas. Se considerarmos que existem várias extremidades, várias posições, notaremos o quão diversificada pode ser a atividade do Limiar, que de nenhuma forma deve ser vista como permanente, monótona, mecânica e inevitável.

* * *

    A vogal E parece possuir uma variação sonora diferente da vogal A. Vejam a palavra MESA: a voga E se pronuncia da mesma forma que a pronunciaríamos caso fosse grafada com acento circunflexo, na forma MÊSA. É que o E parece que mais comumente tem som fechado, mantendo tal som quando é grafado com o acento circunflexo. Não é sempre: vejam que usei a palavra PARECE e o segundo E é pronunciado agudamente. Mas isso é uma exceção e parece ser algo um pouco raro de ser constatar. Inversamente, e não menos raro, também foge à regra a vogal A na palavra CABANA, em que o segundo A tem som fechado, o que não parece padrão de A, que normalmente é agudo, quando sem acento (note-se que nas duas exceções, em “cabana” e em “parece”, as vogais divergentes do padrão pertencem a sílabas tônicas).

    Diferente do E ocorre com a vogal A. Digo MAÇA, e vocês podem pensar naquela arma de guerra cujas vogais A são pronunciadas com som aberto. Aqui, na vogal A, o som agudo parece mais constante. Se coloco um acento circunflexo no último A, isso parece fazer muito mais diferença do que para a vogal E. Pois em A, o som de comumente aberto, torna-se fechado. Não à toa dizem que o I e o U são vogais fortes. Se bem que estão mais para vogais neutras, porque só possuem uma sonoridade e não se alternam nas formas aguda e fechada.

    No exemplo usei acento circunflexo. Mas e se fosse agudo? A relação seria inversa. O A, mais usado com som aberto, não tem mudanças sonoras com a inclusão do acento agudo – na maioria dos casos, registre-se. O E, inversamente, sairia mais vezes da sonoridade fechada, indo para a aguda.

    Se quiséssemos fazer uma brincadeira e escrevêssemos a pronúncia da palavra inglesa “ten” (número dez em inglês) em português, não bastaria, quase, escrever TEM? E assim o é porque a palavra americana usa o E com som aberto, como a brasileira. A mínima diferença na sonoridade se dá porque não falamos, em verdade, TEM, mas TEIM (vejam como pronunciamos o I e nem nos apercebemos disso). Isso não parece desmerecer o fato de o E, geralmente, ter som fechado, já que não anunciamos isso como regra invariável, e já que o "E" pertence a sílaba tônica do monossílabo TEM (e temos verificado que uma vogal de sílaba tônica, sem acento, tem sonoridade inversa da que teria em sílaba átona, também sem acento).

    Uma pequena colocação sobre til e acento circunflexo: concordemos que não há diferença entre eles. Apenas parece que o efeito que produzem é diferente do efeito da consoante M ou N. Assim em TUPÃ, esse som – acho que é nasal que se diz – produzido pelo til não se arrasta como em PÂNTANO (ou como no neologismo "PÃNTANO"). No segundo caso o N parece prolongar a sonoridade produzida, como que preparando o encontro com a próxima sílaba. Por isso, se a palavra MUITO fosse escrita conforme sua sonoridade, deveria ser escrita na forma MUINTO, isto é, acrescentando-se apenas N, e não til ou circunflexo, à sua vogal I. Por convenção chamaremos nasalidade interrompida ou curta à sonoridade produzida por til e circunflexo. E chamaremos nasalidade plena ou prolongada a que é produzida por M e N.

O Caminho Desconhecido (parte 64)

Às vezes desejamos estar em outro lugar,
Mas por fim refletimos:
"Não saio de cá, pior não quero ficar".
Isso também não dá,
Nem aqui estamos certos em parar

Lançam-se as tempestades,
Exigem mais do que queremos dar,
Sempre, e não tem jeito,
Divididos, o objeto e o sujeito,
O ser e o estar

Quero isso, posso aquilo
Devo assim, mas espero assado,
Nunca conciliado,
Sempre incomodado,
O hoje, o amanhã, o sempre, o nunca,
E o passado

* * *

    Lançando-nos de um lado para o outro: assim sentimos que agem os interceptadores em dados momentos. Vemos um conjunto de entidades a nos incitar à sexualidade – para dar um exemplo bem notório. Em outra ponta, da mesma arquitetura centralizadora, do mesmo aparelho emissor e difusor de entidades, encontramos outro conjunto de entes condenando severamente posturas concernentes à sexualidade – continuando o exemplo.

    Parando para pensar mais detidamente sobre isso: vocês não vêem algum paradoxo nisso? Não se está a afirmar qual dessas posturas, qual desses conjuntos de entes é o correto, o certo e o moral. Não se está defendendo algum moralismo, ao menos não o que defenderia uma sexualidade pura e politicamente correta. Também não se está fazendo uma defesa social de criminosos que cometem delitos relativos à sexualidade. O que se está fazendo aqui é colocando esses conjuntos de entidades, a nosso ver opostos, a nosso ver inconciliáveis, um ao lado do outro – diferentemente do que fazem os emissores que os difundem.

    Se esses conjuntos de entes - tão paradoxais, tão anacrônicos e tão incômodos uns aos outros, como os do exemplo - fossem colocados numa mesma cena, numa mesma moldura, num mesmo agrupamento, um ao lado do outro, não nos pareceriam deveras incompatíveis e inconciliáveis? Que processo fantástico e “fabuloso” é esse que coloca figuras tão divergentes numa mesma grade, num mesmo menu, numa mesma estrutura midiática ou universitária, numa mesma gama de cursos e nas mesmas organizações de trabalho?

    Por certo que há um poder que define isso e que não admite alteração, por qualquer pessoa, seja dessa grade, seja de seu questionamento. Por vezes esse questionamento não está na própria estrutura organizacional e está em algum outro lugar, mas sem a mesma proeminência que essas estruturas e sem a mesma força de influência sobre as pessoas. Não que isso seja sempre, não que seja em todas as centralidades, não que não seja um processo reversível. De fato essas coisas são imprecisas e incertas, dada a dificuldade e mesmo a impossibilidade lúcida de generalizarmos as centralidades e as igualarmos - mas suspeitamos essas ideias que nos surgem por certos exemplos como o citado - as sentimos e pressentimos. Convictos, entretanto, parecemos estar dessa necessidade que nos faz pensar e falar essas coisas. Em todo caso sonhamos que, desse nosso ato de enunciar, alguma mudança nasça.

    Por que esses conjuntos de entidades, estranhos uns aos outros, parecem aceitáveis para nós? Não há um silêncio – que se tentou quebrar aqui – sobre esse processo, não há um intervalo oculto a manter e perpetuar todas essas entidades - desses opostos grupos - como apreciáveis?

* * *

Que não consigamos desabar os céus,
Que o abismo não reivindiquemos,
Que nos deixem transitar,
E a tudo revirar,
Sem nos desesperarmos,
Sem merecermos culpa. 

 Caminho Desconhecido (parte final)

    As estrelas brilham solitárias no universo. Isso não diminui em nada o esplendor que possuem.

* * *

    O texto a seguir são as minhas considerações finais a “O Caminho Desconhecido”. Talvez vocês esperem um resumo do que venho escrevendo, apontamentos sobre muitos dos textos ou conjuntos produzidos. Isso ficará para outro momento – quem sabe. O que está a seguir é inteiramente conectado aos textos até aqui produzidos. Não posso dizer que é um resumo de minhas intenções, porque elas mesmas foram se alterando impressionantemente ao longo de minha produção. É, penso, minha última impressão, nesse momento de conclusão dessa grande etapa da obra – pois nada impede que ela seja retomada mais tarde. Mas é mais do que uma impressão: é uma mensagem, quase que outro texto.
 
* * *

    Vocês hão de concordar que, sobre certo ponto de vista, para se falar disso ou daquilo, não é necessário mostrar que, indubitavelmente, cada coisa é o que é. Se dizemos isso é isso e aquilo é aquilo, pois bem, zelamos pela sinceridade e honestidade de nossas intenções e mostramos, assim, que não queremos titubear e queremos ser claros o máximo possível. Ora, e quando estamos incertos ou em dúvida sobre o que afirmamos? Deixaremos de falar, de dizer, de enunciar? Não, não iremos. Anunciaremos da mesma forma, como se certos estivéssemos daquilo que dizemos.

    Digo, por exemplo: “para se criticar um texto, usemos uma música ou uma pintura, pois palavras são corporativas e não se denunciam”. Digo a seguir que “o mesmo valem para as imagens, para os sons”. Tenho tanta certeza dessas coisas que acabo de afirmar, estou sendo totalmente sincero sobre minhas convicções? Não, não estou. Mas por que então mostrar-me tão convicto, ou melhor, donde eu tiro a autoridade para ser assim tão aparentemente leviano a afirmar como inequívoco o que me parece incerto ou dúbio? Pois eu lhes digo que a autoridade advém do silêncio. Sim, do silêncio. Pois antes não havia motivos para se tratar dessas coisas – relativas ao exemplo dado –, para falar do caráter inquestionável das palavras que não se criticam, das imagens e dos sons que não as criticam, de todos eles que não se criticam. Antes essas e outras coisas não se encontravam em debate. Mas pelo simples fato de ter afirmado essa justa mentira, essa indispensável e inigualável verdade-provisória que afirmei como inabalável... por esse fato é que será possível que outros venham e a coloquem em cheque, mostrem sua inveracidade.

    Porém uma coisa os que nos contestarem não vão poder fazer: deletar a nossa proposição, essa que coloca em evidência a possibilidade de crítica aos sons, às palavras e às imagens – implícita no exemplo que dei. Repito: digo esse duvidoso axioma “as entidades são corporativistas”; e a consequência disso será que essa proposição poderá ser ignorada, ela poderá será combatida, ela poderá será alterada – mas não deletada. Uma vez proferida, ela não admite um não-ser. Admite um vir-a-ser, uma transformação. Admitirá um reverso, um oposto, um contrário. Admitirá até um esquecimento – mas não uma inexistência.

    Outro exemplo que poderia dar é quando afirmo que “as imagens nunca foram tanto imagens”. Não me importa tanto se é verdade que em nossos tempos é proeminente que as imagens sejam mais essa superfície textural do que transmissoras de sentido. Importa é, sem dúvida, afirmar que existem imagens que podem se destacar por sua superfície e outras que podem se destacar pelo sentido. Assim também quando digo que “o sentido encontra-se mais proeminentemente entre algumas entidades protagonistas, em alguns momentos, e entre muitos figurantes, em outros momentos”, não me importa tanto ficar apontando “olhem é aqui que o sentido se manifesta entre protagonistas, tenham aqui e acolá como exemplo”.

    Ao estilo dos “pré-imanentes”, que inventei ao longo dessa narrativa (aqueles descritos nas primeiras partes de O Caminho Desconhecido), importa-me são essas regras mais gerais imersas em tantas afirmativas que dei como certas ou axiomáticas. Importante é colocar as coisas em debate, coisas que antes não eram debatidas. Se afirmei coisas como indiscutíveis é porque defendo que isso também seja feito: afirmemos axiomas e verdades eternas! Saibamos entretanto que esse método é apenas um artificio, para questionar outras verdades indiscutíveis e tão difundidas.

    Mas por vezes façamos algo de inteiramente novo, sem nos preocuparmos em questionar e criticar, apenas preocupados em produzir, em afirmar sem preocupação, em criar e sermos criativos. E saibamos todos: não há nada mais questionador e crítico do que isso. Ao elaborarmos algo de novo, que talvez repitamos por diversas vezes em novos textos, músicas e vídeos, nós estamos meio que invadindo o mundo do entes com novas entidades que disputarão espaço com outras entidades prévias, antigas e “imóveis”. Não há nada tão contestador do que isso.

    Outras vezes não se tratará de repetirmos nada, apenas traremos à tona um elenco enorme de variedades e alternativas. Deixemos que outras pessoas reproduzam mais tarde nossas novas ideias: o que será também um justo trabalho pois poderá manter as nossas inovações vivas. Um dia estas também se esgotarão e demandarão serem substituídas, seguindo o mandamento do destino que prevê que “nada é permanente, exceto a mudança”.

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